domingo, 21 de fevereiro de 2010

eu não moro mais em mim.


Eu perco o chão, eu não acho as palavras

Eu ando tão triste, eu ando pela sala

Eu perco a hora, eu chego no fim

Eu deixo a porta aberta

Eu não moro mais em mim

Eu perco a chaves de casa

Eu perco o freio

Estou em milhares de cacos, eu estou ao meio

Onde será que você está agora?

[Metade/Adriana Calcanhoto]

domingo, 3 de janeiro de 2010

Carol e Pedro...


A Carol e o Pedro...o Pedro e a Carol...eram o típico casal que todos adoram, as gargalhas sempre estavam presente, ela cantava, ele tocava piano, ela era bailarina e ele tocava piano.
Piano era a coisa que ele mais amava na vida, depois da Carol...e do Mingau, o gato dele, a Carol não gostava muito de ser bailarina, a mãe dela havia colocado a menina no balé com 4 anos, ai ela acabou acostumando, fazendo muitas amizades e foi ficando...ah..o Pedro amava o jeito como ela dançava.
Carol era alta, magra, dentes grandes, o cabelo era de poesia...caia nos ombros todo ondulado, com cachos nas pontas, bem bonito..de desconcertar seres mais distraídos, ela vivia rindo, mostrando o sorriso, falava alto e era efusiva em demasia, o Pedro, que era tão mais tímido as vezes fiava um pouco com medo daquela intensidade de mulher, mas ele adorava...
O Pedro também era magro, bem magro...o sorriso era mais discreto, agora os olhos...apesar de pequenos eram de tirar o ar, possuíam uma força de qualquer outra dimensão que arrastava tudo e todos, o cabelo caia até os olhos, era um liso não tão liso sabe? Desses que a gente bagunça e fica bonito...
Era um casal bonito demais, de dar gosto de ver, ele ia em todas apresentações de balé dela, quase saltava da cadeira quando Carol dançava sozinha no palco, e ela sonhava com as mãos dele tocando piano, acho que ele era a melodia do balé dela e ela era a partitura preferida dele.
Pois é, mas um dia ela resolver largar o balé...e não o Pedro...cansou...era tudo tão perfeito, tão cheio de medidas, ela era tão diferente daquilo...Carol era mais tango, flamenco..sabe? O Pedro ficou chateado, mas depois passou, ele continuava tocar...
O Pedro era discreto, a Carol não...a mãe dela queria que ela fosse assim, mas a garota não conseguia, falava alto e abraçava todos, os amigos adoravam toda aquela intensidade, todo aquele riso gostoso, mas o Pedro, apesar da timidez era adorado também, ele gostava de ouvir...e ouvia olhando nos olhos, e percorria todos os sentidos daqueles que falavam sem parar, era como se pudesse transpor toda aquela máscara superficial feita pelos mortais.
Quando estavam sozinhos, gostavam de escutar Tom Jobim deitados no chão da varanda, de andar nos trilhos velhos por onde passava um três antigo, ficavam imaginando histórias...delirando, devaneando, tomam chuva com freqüência, ele adorava o cabelo dela todo molhado..riam tanto...bebiam muito vinho, o Pedro ébrio era poesia pura, a pele branca ficava vermelha, e ficava um pouco efusivo, declamava sonetos e sussurrava alguns do Drummond no ouvido de Carol.
Claro que eles brigavam, o Pedro foi para faculdade, Universidade de São Paulo...ele foi fazer Física, queria ser professor...a Carol..foi fazer Artes Plásticas em uma pouco conhecida, o Pedro questionava o motivo dela nem ter tentando uma pública, ela se irritava, falava que não era tão inteligente quando ele, ele se irritava diante disso.
Brigavam porque a Carol fumava demais, ele jogava o cigarro dela fora, ela o chamava de maconheiro, falava que cada um tinha um vício e pronto, ele tinha vontade de enforcá-la com esses argumentos de papel. Brigavam porque ela faltava à faculdade e porque ele nunca teve coragem de tentar música, Carol falava que ele não tinha audácia, mas sempre se desculpavam, seja através de um poema do Neruda embaixo da porta dela ou um pavê de chocolate na mesa dele, óbvio que existiam conversas..e conversas...e abraços...e beijos...e beijos...e beijos.
Ele amava o corpo dela, ela era louca pelo corpo dele, esguio...o pulso fino era o charme, ele gostava de desenhá-la, fazia os contornos com toda calma, e ela pintava os olhos dele sempre..quando acordavam juntos, conversavam desde física moderna ao mito de Narciso, falavam sobre dimensões diferentes, viagens no tempo, filmes, músicas, concordavam e discordavam e expressavam suas opiniões com toda a intensidade.
Ela gostava de ficar sozinha também, ele entendia e também precisava, Carol precisava escreve seus poemas cheios de sinestesia, o Pedro precisava compor, em inglês, alemão...e de vez em quando em português..não porque ele desprezava nossa língua, mas ele tinha um certo medo irracional de usá-la.
Acho que o Pedro começou falar bem mais depois que conheceu a Carol..e a Carol começou a ouvir mais..com os olhos depois de Pedro...
Ah....como eles se conheceram? Um dia desses eu te conto, ai aproveito e te obrigo a ir lá em casa tomar um café!
Ah...o futuro? Calma! Eu nem te contei o passado ainda...
Pedro, Carol...Carol e Pedro..feitos de poesia e gargalhas escandalosas, feitos de prosa e silêncio.
Assim como todos nós.
Ana T.
ps: A foto eu achei perdida na internet, muito bonito o desenho, não?
Câmbio/Desligo.
ps2: Feliz 2010, que a insanidade continue dando o ar de sua graça!

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Minha Lucidez....

Será que estou ficando louco? Confundo os meus sentidos e tento enganar minha razão, já não escuto os outros, deixo as palavras ecoarem sem som em minha mente.
Questiono tudo, mas até disso já me cansei, questiono o motivo de não questionar mais.
Preciso escrever, mas perco tempo com banalidades, meu trabalho me deprime, já não consigo efetuá-lo com tanto entusiasmo, tanto? Nenhum, eu diria. A saúde tenta me privar dos meus direitos, já não posso nem beber, nem fumar, sexo não me importa mais, a textura que eu mais desejava desapareceu entre algumas linhas dos poemas de Camões.
Meu paladar me engana, insiste em querer deixar de existir, estou doente da alma e dos olhos, escuto vozes, deliro em alguém que não fui, perco meu tempo pensando em quem poderia ser.
A única coisa que me mantém vivo é escrever, quanto mais escrevo mais eu sofro, mais eu sangro, porém, só através de tal masoquismo me sinto vivo.
Não quero que publiquem minhas cartas ridículas de amor, não quero desconhecidos analisando minhas angustias, minha dor e meus delírios.
Eu sangro em cada linha, eu preciso sangrar, meu amor...Não se preocupe com minha loucura, agora eles acham até graça. Não estou morrendo, nem com graves problemas de saúde, não se preocupe pequena minha..ainda iremos namorar no portão como antigamente.
Assim que todas minhas cicatrizes pararem de arder, assim que eu não escutar mais aqueles gritos e não enxergar mais a escuridão.
Eu deveria ter gritado mais? Será que assim alguém iria me ouvir? Iriam parar de me bater?
Eu sei que pareço louco, talvez esteja, tentaram me impedir de pensar, de escrever!
Minhas linhas são minhas confidentes, minhas companheiras, meu papel é ternura e violência.
Flor..flor de lírio..eu ainda tenho minhas lembranças com você, com teu cheiro e teu corpo.
Eu ainda converso com as estrelas apesar de me sentir um parnasiano.
Você é minha lucidez, por favor, não se afaste da minha loucura.
Agora tentarei dormir, Paris faz muito frio.
Eu te quero bem.
Seu, e sempre teu
Fernando

03/11/1982

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Olhos de Verão.

Eu queria tirar a tua textura da minha mente.
Tirar teu arrepio do meu corpo.
As palavras cessaram, mas mesmo assim eu desejo achar um pretexto.
Tua voz ecoa entre a nossa distância e não te enxergo.
As suas palavras inexistentes fazem da minha tristeza real.
O teu silêncio faz com que o meu concreto transforme-se em esquizofrenia.
Me perco entre as lembranças efêmeras de um passado feito às pressas.
Sinto repulsa, ódio e ternura.
Confundo os diálogos e invento olhares.
Só me resta o labirinto.

Nem sempre a tua, Ana C.

sábado, 26 de setembro de 2009

Vida Miserável.

Tadinha, mãe de cinco filhos, empregada doméstica, a patroa era o capeta e ainda por cima não pagava direito.
A coitada não podia largar o emprego, lá pelo menos ela possuía algum sustento. Dois filhos já eram adultos, trabalhavam em um camelô no centro, mas ainda moravam com a mãe, os outros três eram adolescentes, um estava encrencado com as drogas, os outros eram da Igreja.
Todos homens, sem nenhuma menina para dar uma certa ternura feminina para mãe. Ah...o marido? Morreu picado por uma cobra no canavial onde trabalhava, ai a esposa juntou os cinco filhos e vieram todos tentar a vida em São Paulo.
Ela virou crente, ia para o culto todos os dias, orava...orava...doava metade do seu salário para Igreja. Tadinha...os pastores eram um bando de filhos da puta que roubavam o dinheiro dela...e de todos os fieis, não só isso..roubavam também o tempo e toda razão que eles possuíam, em troca recebiam um consolo ilusório para aguentar tanta miséria.
O filho mais novo foi preso, a mão desmoronou....chegava atrasada no emprego e agüentava calada os desaforos da patroa, tinha que chorar dentro daquele banheiro minúsculo, sentada na privada, com a bíblia na mão....
Pediu para Igreja orar pelo filho preso...fazer o que...ela não tinha dinheiro para contratar advogado.
Agora vivam os cinco na casa de um cômodo, dois dormiam juntos...outros dois no chão...e o caçula com ela...Ai um dia desse todos eles foram para o culto, por um pedido choroso da mãe, iram orar pelo irmão.
Pois é...o dinheiro que ela e todos aqueles fieis davam para as obras da Igreja deve ter sido usado para bancar o carro zero de cada um dos pastores, além das festas particulares que eles deram....enquanto isso o teto da casa do Senhor continuava precisando de reforma.
E bem no dia em que a família toda estava lá...desabou tudo, todos morreram inclusive a mãe e os quatro filhos.
O que estava na cadeia ficou louco quando soube e resolveu cortar os pulsos..não deu muito certo e então resolveu se enforcar.
Todos foram enterrados juntos, porém sem um túmulo, sem uma lápide...se não tiverem condições nem para nascer, quem dirá para morrer.
Ninguém foi visitar, ninguém foi deixar flores...
Eles não influenciaram o mundo em nada, nem com a vida e muito menos com a morte.
Triste né, pena que é real.

Ana T.

sábado, 12 de setembro de 2009

Um dia desses...

Acordei super bem e disposta, tomei suco de laranja. Dormi bem.
Acordei te procurando na cama, não te vi.
Levantei com preguiça e procurei por um bilhete, não achei.
Nem azul, nem amarelo.
Resolvi passar na padaria e comprar guloseimas, achei os amanteigados que você tanto gosta.
Suco de laranja para mim, de abacaxi para você, cinco pães quentinhos e pães de queijo para alegrar a manhã.
Cheguei em casa, não te achei, mas mesmo assim resolvi preparar a mesa para o café.
Que bonito...coloquei margaridas para enfeitar e Beatles combinava com a claridade serena.
Dois pratos, dois copos...mesa para dois. Eu sento um pouco na cadeira, te espero mas você não vem. Tomo meu suco lendo Jorge Amado, resolvo não comer nada.
Escovo os meus dentes, lavo meu rosto e ainda não te vejo, arrumo a cama e sinto teu cheiro.
Preciso sair, troco de roupa e coloco aquele vestido bem bonito que você tanto adora.
A tua ausência ainda grita, eu resolvo te deixar um bilhete em cima da cama.
Escrevi em duas linhas, com caneta esferográfica em um papelzinho azul.
Mas daí eu lembrei...que para mim...você não existe mais...
Amassei o papel, tirei um prato e um copo da mesa, joguei as margaridas no lixo e sai.
Sem bilhetes e com a tua ausência fazendo um barulho ensurdecedor.

Ana T.

domingo, 6 de setembro de 2009

Um Soneto.

Para André:

Soneto de vinho.

És Ezequiel no olhar.
Dionísio na face.
As tuas mãos são fugitivas.
Teus olhares efêmeros.

És vinho na essência.
Poesia nas palavras.
A intensidade te faz refém de suas próprias ações.
E tua melodia doce deixa reles mortais desconcertados.

Destila por muitas vezes a inocência.
Que se contrapõe constantemente com a tua audácia voraz.
És paradoxal no sentido mais belo.

Usa da razão como refúgio dos prazeres que lhe geram medo.
Apesar das vozes opostas em sua mente prefere a realidade dos sentidos.
Sendo assim, a flor da pele.


Com amor, Raquel.