sexta-feira, 30 de setembro de 2011

uma história de polícia

Ela correu pra pegar o último metrô, ele ficou, ele ficou porque ela pediu com o corpo, ele queria ir embora, ela sempre acha que sabe o que ele queria, mas nunca sabe.
O telefone insistiu em tocar, tocou tocou tocou só tocou, ninguém atendeu do outro lado da linha, ela estava deitada, degustando a sensação que invadia a sua boca, gosto amargo, tentou mais uma vez, levantou, tomou um gole da água, mas o gosto não saia, checou os meios de comunicação, sentiu uma típica falta de ar, pensou na vida, nos ladrões de bicicletas, cachos, vírgulas, ponto, tristeza, distração, pensou no céu que observou fugindo, penso nele e naquele par de olhos expressivos – meu deus. não dormia, apesar do sono, ligou pela quinta vez, já se sentia patética, nada, nada, aquele barulho incessante, teve vontade de estilhaçar aquele aparato, teve vontade de correr e cansar o corpo, pensou em aparecer na porta de Theo, talvez pudesse preparar um bolo de maçã com canela, ou biscoitos de aveia e mel, tanto faz. Fim e afins, que vício ridículo, contos circulares moram em mim, não sou tão louca quanto aparenta, nem sou louca, quero carinho e atenção, beijos e gosto de baunilha, nada de esotérico ou incomum, a normalidade a amedrontava, a loucura era sua licença poética para vida, teve vontade de chorar, mas não chorava há tempos, teve vontade de caminhar até o trabalho de Theo, mas não foi, pontos e virgulas se encontraram, interseção, beijos aleatórios, sexta sem o teu corpo, inventar a tua tristeza pra dormir longe do teu corpo, inventar um propósito para sentir raiva, Ana sentiu uma leve tontura, tomou o terceiro remédio para dor de cabeça e foi tentar dormir, afinal, no dia seguinte, era tudo igual.

sábado, 24 de setembro de 2011

Summer '68

Pedro pintava ouvindo samba, Ana pirava com rock progressivo. Aquarela psicodélica, contos de nicotina, laranjas e morangos, limão, aveia e mel, discos no chão, Milton Nascimento na estante, Tim Maia era o síndico do prédio sem nome, dormiam em lençóis de verso, buscavam um no corpo do outro, a textura da prosa. Ela pairava entre notas sinestésicas, ele cantarolava Toquinho, dormiam juntos e mesclavam qualquer melodia em sonho, Ana sambando, Pedro reparando nos acordes. Ana tocava piano, Pedro gaita, malandro, Ana tinha insônia, passava noites acordadas, Pedro fazia samba e amor até mais tarde, tinha muito sono, independente da hora. Os dois fumavam, os dois pairavam por ai, como já dizia o poeta: a brisa primeira levou. Ana gostava do Caio, escrevia dores alheias, discorria sobre desespero, era louca ou normal, não se contentava com nenhuma dessas denominações, Pedro...o Pedro eu não…o Pedro vive em outra dimensão, a Ana também..mas o Pedro..o Pedro é diferente…só isso o que eu posso dizer. Agora entre, faz muito frio, amanhã tento achar uma foto de Ana, menina engenhosa, meu bem..engenhosa.

domingo, 18 de setembro de 2011

domingo no parque - ou será na cama?

Ler a som de: Poema – Cazuza
Ou será para ler ao som de: Retrato pra Iaiá – Los Hermanos ?

Domingo no parque, mas ela estava em casa, deitada… se aninhando na cama, o sol queimava lindo lá fora, alguns trabalhavam, outros lavavam suas roupas e faziam arrumações em seus quartos, buscando se livrar dos papeis que dificultavam qualquer passagem de ar, de escovas de dente antigas e meias alheias. Que tudo mais vá pro lixo, energia nova em movimento, por favor.
O telefone dele tocou, devido ao sol alto, não escutou, típico, o toque insistiu, ele ouviu um ruído, abaixou a música, era ela, que ainda estava embaixo das cobertas, ele atendeu atordoado, ela já falou as informações com pressa pra não ter perigo de nenhuma rejeição imediata, ele comentou do sol, ela sorriu, trocaram algumas palavras, ela comentou sobre aleatoriedades e banalidades deliciosas, comer brigadeiro de panela vendo filme, o moço discorreu sobre o chá novo que havia comprado – bom para os nervos. Dizia ele sorrindo observando a caixa, ela gostaria de ser convidada para experimentar, sonhou por uma fração de segundos: a vitrola antiga, o LP girando, chá, fumo, vida e sol, flores, uma conversa simples, ritmo gostoso, olhos nos olhos, raro, muito raro, o fluxo de pensamentos cessou assim, rápido e indolor (ou não), ela percebeu que havia ficado em silêncio, coisa rara. Ela precisava ir pro banho, água correndo sobre o corpo, disse sobre a ausência de estudo, ele concordou com a cabeça, ficava um silêncio ora tão cheio, ora tão vazio, respiração e tanta coisa em nada, nada em tanto. Imaginavam as cores que permeavam a manhã um do outro, ela imaginou o verde, a colcha na cama, a fumaça leve e solta pelo quarto, ele pensou no mural de fotos e na brancura da moça. Em um espreguiçar leve, a garota suspirou – vamos falar até acabar…Disse ela sem paranóias. - isso… Disse ele sem pedras. - qual é o nome da peça mesmo? – o despertar da primavera.
Pois é, a última frase ele não escutou, mas ela já havia dito.
Fim.


Foto: Parque da Cidade
Fotógrafo: Guilherme Andere

beijo da Ana T.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

se eu fosse a Cléo...

e a casa a sufocou, as paredes também, queria respirar, queria ar, queria qualquer coisa que não fosse dor, dor alheia, tentava quebrar as paredes mas não conseguia,não conseguia, parou de tentar, as paredes ficavam cada vez mais estreitas, não respirava nem chorava, assistia em silêncio, sem gritos, sem lágrimas sem qualquer tipo de manifestação, ah..amor…esse mundo insano louco doente…

Cléo e Daniel, é…faz sentido, céus, faz sentido...

insônia e leveza

todo menino criança sapeca olhando pros lados e pra baixo e sorrindo sorrindo com seus dentes bonitos

todo magrinho correndo de um lado pro outro caindo sujando a roupa arranhando os joelhos ralando o cotovelo

todo perdido nessa multidão todo perdido por ter se achado em si se achado tão diferente



os dois brincavam rolavam na grama juntos subiam em árvores roubavam amores amoras lírios flores de lírio delírios morangos qualquer fruta madura roubavam pipas coloridas dominós cartas de papel riam riam rodavam

giravam entre estrelas maduras e cometas giravam entre cachos e elos azul e amarelo



gargalhadas de sol

os dois se experimentaram

mesclados misturados

pele gosto

fruta fresca

matar a sede na saliva

e a fome na carne



correram pra assistir o sol indo embora

o lugar era tão alto

até os passarinhos destilavam medo

voaram alto

muito alto

os dois

às vezes olhavam pra baixo

tontura tortura

labirinto

sem medo do tombo

sempre esfolavam os joelhos

era só um pouco de sangue



deitaram na grama

o céu estava lindo

imensidão infinito

roupas rasgadas

sujas

gostos mil

cheiros

ela fazia do abstrato palpável

ali

tocando a pele dele

ele suspirava respira expressava

dormiram enfim

de qualquer jeito de um jeito qualquer

ele a abraçava

ela inquieta

mas gostava

queriam ficam mais próximos

mais próximos



outro dia outra noite outro amanhecer

qualquer coisa

que seja

já faz tanto tempo que eu não me lembro

eram tão novos

tocava Caetano trem das cores

outro dia

na pele gosto sexo nicotina terra poeira poluição saliva

falas justificativas histórias amores mancha de amora

doses de tristeza insegurança

doses generosas de leveza alegria que derrete desmancha na boca oscilações térmicas

estavam estáticos

tragando um o olhar do outro

já que o cigarro havia acabado

a boca estava seca



água caindo percorrendo a pele

gostaram da idéia

correram

sol da manhã entrava pela fresta da janela

estava atrasados

ah rotina

nem ligavam

riam riam sem parar

ele olhou desconfiado

ela nua

página em branco

- espera, nós só sabemos fazer coisas que nos sujam…e agora vamos…sabe…tirar…limpar…isso é estranho.

parecia que ele tinha medo da água roubar deles aquela ternura roubar deles tudo aquilo nada daquilo roubar a alma roubar um do outro ele de si mesmo

ela ria…ria da expressão das falas..ria…crianças. não me lembro bem o que ela falou..talvez tenha sido algo – água caindo no corpo…água é energia em movimento, vida…vem…

estendeu a mão e ele sorriu

água corpo pele riam muito muito beijos entre gotas e risos ternura vontade

se abraçavam se afastavam – deixa eu lavar o seu cabelo!

a luz tão bonita, céus, quanto tempo faz...luz de sonho bom. ai ai que saudade faz tanto tempo

depois ou antes não sei não lembro detesto ordem linhas cronológicas

ele fez café ali na cozinha, ela sentada na cadeira observando seria sonho? devaneio delírio fantasia…ele ali todo menino procurando açúcar filtro e ela não sabia bem onde ficavam as coisas ela não sabia bem onde ela estava

esperaram o café ficar pronto jogados no sofá, fazia frio, janela aberta

uma gata aparece desconfiada silêncio

ele destila um olhar pra bichana

[eu quase consigo tocar esse olhar – um fio invisível e eterno]

a gata desvia

um carinho quase de longe um carinho nada efusivo um carinho dele um carinho leve

gata desconfiada, ela se afasta

carinho

ele esboça um sorriso

[eu consigo tocar esse sorriso]

a gata encosta a cabeça em suas pernas cruzadas

os olhos dele quase se fecham, tão pequenos

carinho da gata carinho dele

a gata se afasta

luz linda

aquele cheiro pairando era o dia que começava



canecas cigarros varanda amanhece

diálogos

falares



ela arruma a cama

ele joga seu corpo leve

ela sorri fingindo de brava

ele a puxa pela cintura



quem dera se pudessem procurar por mais frutas maduras

as despedidas deles são eternas

nunca é uma despedida

elas não existem

são farsas

esquece carteira

cachecol

leva a blusa no corpo

toalha escova de dente

qualquer coisa

esquece o que não é dela

dele

esquece um cacho

outra textura



estou quase como eles

levantaram sei lá quando

esqueceram mil coisas

voltaram

o espelho os encarou

crianças

sapecas



apagaram a luz

bateram a porta

ela esqueceu de trancar

e saíram

cada um para um lado


mentira


beijo da Ana T.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

culpas cotidianas


Oi. Bom dia.
O café está quente, mas acho que ficou muito doce pro teu gosto.
O pão está no armário, comprei logo cedo. Espero que sua dor de cabeça esteja um pouco melhor. Tem remédio na prateleira, dentro da bolsinha branca.
Descanse, tem muitos livros no quarto, filmes também, mas talvez seja bom você descansar um pouco os olhos. As tintas estão no quarto de fora, mas não sei se o cheiro lhe faria bem. Sei que detesta que falem o que você deve fazer, como agir, mas…mas…tua falta de ar me assustou demais. Foi desesperador entende? Não, claro que não.
Tem algumas telas no meu armário, pode pegar o que quiser. Vou tentar achar seu cavalete dentro daquele caos. Há tanto tempo que não pinto. Bom, não vou demorar, preciso resolver algumas coisas na agência, estou tão cansada de lá, sei o que você me diria, não, não, não dá, eu não posso largar aquele lugarzinho medíocre empresarial e ir vender artesanato&telas&poesia e um pouco de nós na Bahia, morar pra lá, não, não, não dá, eu não posso. Eu não quero, é conta pra pagar. Eu sei, eu sei, você vai falar que me vendi, ou não, vai falar que eu nunca precisei disso, em que segundo será que eu me tornei assim? Talvez naquele outubro em que tomamos tanto ácido tanto que achei que fosse endoidar de vez e eu não tinha nenhum puto no bolso pra nada, e ainda restava um pouco de vergonha na cara pra não pedir pros meus pais. É. eu sei…Talvez se eu…será que se eu tivesse ficado pirada eu iria ser mais eu? Será que se eu não tivesse soltado a tua mão, tu ia entrar nessa? Porra, eu não agüentava mais aquilo, não agüentava mais. Meu corpo…nosso corpo…Eu sai correndo mesmo…te deixei naquele quarto cheirando…a sexo…cocaína…Eu te deixei porra, mas você me assustou demais com aquela loucura, porra! Você disse que ia me trancar no quarto, você queria me trancar! Era pior que internação. Não, isso não. As malditas borboletas que você insistia em enxergar nos meus cabelos, borboletas azuis..amarelas…as pretas…ah céus..as pretas…Porra, você me acordava no meio da noite pra discorrer horas e horas sobre a porra daquela espaçonave. Eu sei, eu sei, meu deus, como eu te amava e como doía, e como me dava tesão transar com você a noite inteira, ficar com teu gosto no meu corpo todo, caralho, como eu gostava. Porra, era tudo junto. Por que eu fui tão fraca de te largar lá? Mas era isso ou eu ia…você sabe que eu ia..você lembra dos meus pulsos…da quantidade que eu cheirava sem parar…Eu não ia agüentar, meu menino..não ia suportar ficar trancada nenhum dia naquele caos sem luz (porque você gastou a porra da grana com cocaína!).
Aquele cheiro cara, a gente deixou o jardim morrer. Por quê? Eu amava tanto aqueles girassóis da cor...da cor…Eu te larguei…você não me ouvia eu não te escutava suas paranoias minhas mentiras. E tudo girava torturava…e eu não achava mais o teu som nem tua pele na cama era dor e sangue porra…você não vai me responder, você foi parando de falar..silêncio ensurdecedor…você não lembra…
Tem um restaurante vegetariano que entrega até às 14:00h, é uma delícia. O telefone está colado na geladeira, o dinheiro em cima da mesa.
Ah, se a gatinha começar miar muito, dê biscoitos pra ela, estão no armário da cozinha.

Um beijo, até a noite (que nunca vai chegar.)
Mais beijos (aquele eu não te dei)

Da tua, sempre tua
Ana T. Aveia e Mel.

sem dor sem sangue
sem hoje

PS: inspirado em tanta coisa, referências mil – Caio Fernando Abreu, Arnaldo Baptista, e todos nós e tudo isso e nada disso e ....