terça-feira, 1 de março de 2011

Quinta-feira

- Oi.

- Oi.

- Mudei meu nome.

- Legal.

- Agora é Brisa.

- Leve.

- Mudei meu rosto.

- Que brisa.

- Agora é Leve.

- Mudei minha alma.

- É bom?

- Sinestésico.

- Mudei meu beijo.

- Eu percebi.

- Você.

- Sim.

- Eu.

- Gosto tanto.

- Mudei minha pele.

- Textura.

- Mudei de espaço.

- Pra onde?

- Rua de cima, Rua da Saudade, 175.

- Te visito lá.

- Acabou a luz, mas tem muitos espelhos.

- Que bom.

- As paredes são em prosa, a porta em poesia.

- E teus cachos?

- De amora.

- Acho que vou embora.

- Pra lá.

- Mistura, desmancha no ar.

- Marx.

- Foucault.

- Me perdi.

- Em mim.

- É sempre assim.

- Que boba.

- Quem é você?

- Sou eu.

- Clichê.

- Medrosa.

- Ai, que audácia.

- Ironia sem obter sucesso.

- Sucesso.

- Palavrinha corporativa.

- Empresa, executivo.

- Ah..equipe...normas.

- Entrevista.

- Você se considera ativo?

- Babaca.

- Hipócrita.

- É isso!

- O que?

- Eu tenho que ir pra uma entrevista.

- Vai lá!

- Eu vou pular em uma piscina de hipocrisia.

- Oh drama, vida cruel.

- Brisa.

- Leve.

- Beijo.

- Boa entrevista.

- Até.

- Te vejo no espelho.

Ana T

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Pra Não Sufocar


Ler ao som de: Bilhetinho Azul - Cazuza

Hoje eu acordei com sono, muito sono, sem vontade de acordar, pensei exatamente nessas frases antes de abrir meus olhos, e lembrei-me daquela música do Cazuza, isso me fez sorrir de leve, me aconcheguei na cama, tive vontade de ir pra Bahia, o despertador insistia em gritar.
Já passava das três, certamente, chuva típica, a cama estava vazia, sentia isso, o meu amor foi embora, tentava reconstruir a noite anterior, um bar na Augusta, três tekilas, quatro copos de whisky sem gelo, garrafas de vinho quebradas, falar alto, muito alto, beijar a boca com tesão, fazer sexo dentro daquele banheiro sujo, ouvir o dono do bar me xingando dos nomes mais chulos, a gente saiu rindo, gargalhando, tropeçando nas mesas, andando abraçado, promessas vazias de amor, declamando poesias, nossa, lembro que comecei com Caeiro terminei com Camões.
Suspiro alto, não vou levantar, que beleza de noite, creio que cheguei em casa depois das seis, não me lembro qual foi minha última refeição, discuti com o porteiro, me olhou feio destilando preconceito, mandei ele pra puta que pariu, depois me senti patético, subi de escada, a merda do elevador estava quebrada, me arrastei nos degraus, queria mais um copo de whisky, machuquei o joelho, meu amor me colocou no chuveiro de roupa e tudo, puxei ele junto, caímos no chão, a água gelada cai sobre os nossos corpos, cortei o braço, tirei a calça, meu amor também, saímos de lá, jogamos nossas roupas molhadas e deitamos molhados.
Sinto um gosto de sexo na minha boca, sinto cheiro de sexo no meu quarto, mas não consigo me lembrar, percebo que minhas costas ardem um pouco, lembro de nós sentados no chão fumando, falando sobre o que mesmo? Heterônimos, pseudônimos, fiquei um bom tempo discursando de como era importante ter um desses, meu amor ria, ficou em silêncio por um tempo, depois de um trago me disse algo como: Tenho um pseudônimo, mas ele escreve só pra mim. Fiquei com uma espécie de inveja, porra, ele insistiu: Provavelmente se alguém fosse ler o que eu escrevo, escreveria diferente. Lembro bem dessa frase, fiquei intrigado, será que eu faço isso? Faço meus textos pensando no que vão achar ou pensar? Olhei sério, falei que se não pudesse expressar iria explodir, sim, usei essa palavra feia, explodir, lembrei-me de um amigo, o moço diz algo sobre compartilhar a maldição de seus escritos com os leitores, ah, não é bem isso, quando levantar ligo pra ele e pergunto, não posso esquecer.
Minha memória está um caos, acho que conversamos sobre amor, ah, metalinguagem, falar de nós mesmos, tanta subjetividade, detesto não conseguir me expressar, gesticulava com as mãos, que fracasso, tinha álcool correndo em minhas veias, não completava nem as palavras, mas minha mente borbulhava, meu amor ria, passava as mãos sobre meu rosto, isso, acho que transamos ali no chão, ou será uma memória criada? Nosso cérebro tem tantas dessas, sexo no chão gelado, lembro de me apoiar na cama, lembro? Ah, meus joelhos... acho então que não foi na escada...enfim...maço de cigarro acabou, falamos mais, muito mais, sobre prioridade e exclusividade, falei dos meus medos, ele me falou sobre máscaras, me questionou até que ponto meu pseudônimo é uma máscara, ou se sou eu a máscara do meu pseudônimo, pesado, me senti mal, mas foi bom, precisava ouvir isso de alguém.
Lembro do gosto da pele, gosto de beijar o pescoço, lamber, saborear, meu amor treme, abre um pouco a boca, me aperta forte, eu gosto muito, mas não sei, uma noite estranha, não brigamos, nunca brigamos, mas não me lembro o motivo dele ter ido embora, não sei que horas, isso me chateia um pouco, espero não ter falado nada demais, o cheiro de sexo está muito forte, mas lembro de uma vez só, no chão...Será que ligo? Não, melhor não. Acabou o cigarro, acho que o pó de café também, isso, será que ele foi comprar ali na padaria? Gostaria muito, queria meu amor aqui, aquele cheiro de café...
Ah...falamos sobre ser piegas, clichê, romântico, casar, meu pessimismo, ceticismo, mania de fazer da vida um conto e da briga uma cena de Nelson Rodrigues, filmes franceses, nem vi tanto filme assim, nem li tantos livros assim, será que os finais felizes saíram de moda? Pensei nisso ontem, será que ele está chegando? Acho que vou escrever esse fluxo de pensamentos, preciso de um final, provavelmente meu amor estaria com outra pessoa, seguindo a tradição dos bons costumes católicos, em um almoço com muitas pessoas, filhos, mãe, cachorro, não comigo, nesse apartamento fodido, que nem pó de café tem. Mas esse seria, talvez, o final do meu conto.
Eu quero é ser feliz, acho que nasci pra isso apesar de tudo. Ah, que gostoso...o barulho da chave, a porta abrindo, maço de cigarro, pó de café e ate pão. Daqui a pouco vem aquele cheiro...qual deles?


Ana T.
ainda penso no título. [antes estava como Sem Café, até que um comentário de um anônimo me deu essa idéia, obrigada stranger. besos. ]
boa noite, bom dia.
câmbio/desligo.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Tentativa.

Ando meio enjoada das minhas escritas, minto, não ando enjoada, apenas estou comparando textos antigos com os novos, creio que perdi muito do meu lado objetivo e narrativo, não que isso seja ruim, estou apenas ponderando, ultimamente escrevo de maneira extremamente subjetiva, milhares de reticências, pontos sem explicação, frases sem ponto final, entre outras pequenas manias.
Sim, claro, conheci Caio Fernando Abreu, na realidade, parecia que sempre o conhecia, ele estava mais em mim do que eu pensava, me viciei em cada palavra dele, achei a intensidade que me faltava, achei a audácia, fui me tornando menos puritana com as palavras, fui respirando seus livros de maneira um tanto ofegante, me debrucei em suas paixões, procurei pela intimidade, cartas, desejos, histórias e tristezas, e achei nele, mais de mim mesma, porém, com isso, meus textos vem carregando tal marca, uma loucura lúcida, que seja, palavras sem nexo e sem vírgula, não, não acho ruim.
É necessária essa entrega plena, mas, confesso que tal maneira de escrever, acabou me deixando um tanto estática diante das provas e trabalhos na faculdade, girava a caneta, respirava, pensava em algo desconexo, e a partir disso tentava formular um pensamento concreto.
Ora, quanta loucura, eu querendo tirar de mim, o que me torna eu mesma. Mas será que é só isso que me torna Raquel? Acho que essa idéia de “minha marca”, “meu jeito” e “minha maneira de escrever” me deixam um pouco amedrontadas, me sinto presa em mim mesma, quero tentar outras coisas, misturar, transcender, mesclar o que eu faço hoje com algo do passado, resgatar o que há de bom. Sim, é meu jeito, é a maneira como escrevo, óbvio que isso só é assim, pois passei por inúmeros processos, ainda passo, e é por isso que estou em constante mudança, o processo não tem fim, está sempre em movimento.
É evidente que preferimos uma coisa a outra, uns são mais abstratos, outros detestam assuntos sobre cosmos e afins, temos os amantes da poesia, “eu ainda falo versos e não fatos”, e os que são apenas indiferentes, um aprecia uma maneira de escrever diferente do outro, seja por facilidade, inspiração ou técnica, mas não é por isso, que temos que nos ater apenas ao o que sabemos fazer com destreza, creio que necessitamos de constante mudança, exercitar a mente, jamais deixá-la estática, com ações mecanizadas.
Se entregue ao que te de prazer, claro, permita-se ao vício, horas do mesmo livro, do mesmo autor, escreva dias sob a influência do mesmo, mas, que tenha audácia de não permanecer estático, mecanizado, desconstrua-se, eu preciso fazer isso, ser atrevida, audaciosa, escrever de uma maneira que não me sinto tão dona das palavras, creio que com tal ação, levamos novas idéias para o que já estava se tornando mecânico.
É exatamente isso, que deixemos nos permitir ter a audácia de desconstruir a idéia de que somos geniais, fazendo justamente o que não somos bons, e através desse movimento, desse exercício, o novo inspira e agrega ao antigo.

Céus! O ano está acabando né, sempre existe aquela coisa de ponderar o que estamos fazendo e blá blá blá.

A citação que apresento no texto é de Maiakóvski.

Câmbio/Desligo
Raquel

sábado, 20 de novembro de 2010

as cartas que eu não mando

No Rio de Janeiro, hoje é vinte e três do três, faz um calor insuportável, as pessoas andam pela orla da praia, dezoito horas e trinta e sete minutos, o sol ainda suspira, a moça ainda está na deitada na areia, e o namorado joga vôlei, paira um perfume gostoso no ar, um vestido amarelo da cor do seu cabelo, fim de tarde bonito demais.
Alguém passa cantarolando balada-do-amor-inabalável, na calçada, os dois sentados, ela toma um suco, ele observa, Ana usa um vestido azul da cor do silêncio, ele não fala muito, é tudo tão nostálgico, essa coisa que o passado é sempre mais belo, essa coisa de não nos ater as lembranças amargas, existe um filtro, talvez seja bom.
Ela sorri, encosta a cabeça no ombro dele, ele parece um pouco acuado, assustado, faz tanto tempo, tanto tempo, será que já fez o bastante pra esfriar tanto? Não. Ele faz carinho nos cachos dela, ela fala bastante, e não fala nada, ele destila palavras que remetem ao tempo em que dividiam a mesma cama, as frases pesam o ar, ela olha triste, olha nos olhos dele, ele encosta a cabeça no ombro dela e tem vontade de chorar, mas não chora.
Ela começa cantarolar mesmo-que-a-gente-se-separe-por-uns-tempos-ou-quando-você-quiser-lembrar-de-mim-toque-a-balada-do-amor-inabalável. O desencanto desaparece, ele sorri daquele jeito, aquela risada, aquela risada dele, específica dele, toda dele, só dele, Ana termina o suco e aperta as mãos do moço, as palavras são leves, dançam no ar, como a conversa, que apesar de ser feita com bastante silêncio, flui toda bonita, toda sincera, toda os dois.
Ele olha pra boca dela, ele olha pro pingente dela, e retoma aos olhos, e depois de um suspiro quase sorrindo fala assim, sem censura:
- Foi tão gostoso conversar aquele dia.
Ana arregala os olhos, e meche nos cachos, depois no pescoço, e por fim as palavras tropeçam e caem no ar:
- Sério? Achei que você me acharia estranha e ficaria perturbado.
Antes que ele falasse algo, a moça continuou:
- Foi gostoso mesmo; quando você falou comigo...fiquei tão sem ação.
Ele sorriu bonito e concluiu:
- Olha, estranha você já é, e perturbado eu também já sou, então a gente não tem nada a perder.
Ana olhava..olhava..queria falar sobre aquele diálogo, queria contar as idéias sobre fazer uma cena de teatro, cinema, que seja, talvez poesia, isso, poesia! Mas as palavras não queriam pairar no ar, o corpo gritou mais alto, ela o abraçou, ele não entendeu, mas o corpo também gritou, e depois de tantos anos, estavam se abraçando, estavam se abraçando, estavam se abraçando, eles estavam se abraçando, no dia vinte e três do três, naquele calor insuportável, ela de vestido azul e ele com aquele olhar, que certamente foi inventado pela memória. Não importa, só sei que eles se abraçaram por tanto tempo que acho que até hoje ainda estão lá...naquele abraço que demorou tanto tanto e tanto e não parou mais.

Ana T.

sábado, 13 de novembro de 2010

Era dia, era sol, era um trem das cores, tantas frases escritas com aquela caneta azul, o caderno típico, personagens e outra cositas mais, conversavam sobre nem sei o quê, sobre o azul celeste celestial, Ana ria, fechava os olhos, acendia outro cigarro, e observava todos que ali fumavam, tocava a fumaça com o olhar e sentiu frio, a noite vinha, a chuva apareceu despercebida, a conversa continuava sem presa.
Estava indiferente, apesar do sorriso, estava em silêncio, em um silêncio distraído, ás vezes pronunciava algum silaba, mas não expressava tristeza, Ana estava um pouco enjoada de si mesma; acontecimentos típicos do cotidiano, erro, ruído, caos e outras cositas mais.
O cabelo despenteado, a blusa antiga, tomava um chá gelado, tragava, fitava a fumaça, Ezequiel ria bastante, falava em alto e bom tom, com as mãos, com a boca, com o corpo inteiro, Ana queria-qualquer-coisa-que-fosse-diferente-daquilo-apesar-de-não-ter-motivo-pra-tal, mas desde quando precisamos ter motivos? Pensava ela, entediada, não da situação, mas dela própria, Ana bocejou, nada era lindo, nada. Sem tesão, sem vontade e sem apetite, só queria outro cigarro, mas havia acabado, sentia um cansaço por nada, por falta de alguma-coisa-qualquer-que-não-sabia-o-que-era, crise existencial? Ah, não.
Os ratos soltos na praça, os olhares sorrindo, as frases soltas sobre uma beleza aleatória inexistente, inexistente pra Ana, mas todos insistiam em dizer o contrário, ela infelizmente respondia com o silêncio, ora ou outra mordia os lábios ou suspira fundo, queria sair de lá, gritar bem alto e sentir dor, mas não, estava estática, naquela pose tediosa, estava inquieta, mas queria expressar uma face serena, era patético, e Ana sabia.
Em certos instantes, ela sorria, aquele perfume dele no ar, ora a pele encostava-se à dela, pensou até que iria escrever, escrever coisas geniais, literárias, sinestésicas, e blábláblá, mas não, era ilusão pura, pura ilusão, fazia tanto tempo que não escrevia nada, nada, nada, aquela tela branca ficava encarando o rosto de Ana.
Segundos, segundos, tic-tac-tic-tac, parou a chuva, vamos embora, está ficando tarde, ah que bom, carro, trânsito, inferno, certos comentários ecoavam, um desencanto na garganta consigo mesmo, frases também estavam por lá, frases ásperas, frias e secas. Estava calada, alguém perguntava pelo seu silêncio, ela sorria, é sono, claro.
Despedidas frias, não era praxe, desceu do carro, caia um sereno, andou depressa até o prédio, não cumprimentou o porteiro, subiu até o segundo andar de escadas, procurou as chaves parada na frente da porta, sentia raiva, entrou em casa, estava em seu quarto, não tinha mais ninguém, os livros, achou o caderno, caderno vermelho, folhas tão bonitas, desenhos, escritos, poesia, não era lindo, não era nada lindo, era triste, desesperado, arranhava o corpo inteiro, sentiu raiva, muita raiva, e pensou em rasgar todas aquelas folhas, uma por uma, imaginou o depois, a tristeza, o desespero, mas mesmo assim, o impulso concretizou a idéia.
A primeira folha foi com ódio, parecia cortar a pele, a segunda teve vontade de chorar, mas gritava em silêncio que era patética e tola, aquele papel picado no chão, mais de dez folhas rasgadas, histórias, delírios e tanta tristeza, assim, no azulejo de tédio, não era nada lindo, nada era lindo, era tudo tão cinza e cheio de dor.

Ana T

Será que ficou meio incompleto? Desde quando as coisas têm fim?
Câmbio/Desligo

sábado, 30 de outubro de 2010

"Estou me confundindo, estou me dispersando." Caio Fernando Abreu.
mas não, ai vem o cosmos e muda tudo, me dá uma puta vontade de viver. ainda bem.
Que seja doce!

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Formato Mínimo

Para Ezequiel:

Ela estava sentada na cadeira, de uma maneira peculiar, com um cigarro aceso, vendo toda aquela cena conturbadora.
ele ria dela ou com ela, nunca sei.
o som era mutantes e a bebida café, a caixa de biscoitos ainda estava fechada.
ela queria fumar e ficar delirando a tarde inteira, ninguém sabe ao certo o motivo.
ele queria......bom, deixe ele falar.
escrever era a única maneira que ela achava de se sentir viva.
viva por inteira.
depois começaram a dançar, uma valsinha..seja do Chico ou qualquer clássica, e a tarde inteira riu para os dois, cairam na cama...a chuva fez do sono sereno, e dormiram sem nada, sem medo e sem roupas.
acordaram sem saber o nome um do outro, assim era melhor.
nada idealizado, nada de contos e histórias prontas.
ele lavantou primeiro, declarou-se dela o súdito.
a tragédia estava feita.

pois é, a história é nossa, que bom.

beijo da Ana T.
ps: Inspirado em uma música do Skank, chamada Formato Mínimo.
Foto: quarto místico, cores e cores e cores e cores e cores e cores e...