hoje o dia tem sol
acordei com dificuldade
abri as janelas e os armários
e joguei tudo fora
confesso
guardei algumas coisas (poucas)
mas já respiro melhor
segunda-feira, 2 de julho de 2012
quinta-feira, 28 de junho de 2012
dia vente e seis
sempre que terminamos
eu te ligo e você me diz
que está jogando
coisas foras
imagino você jogando pedaços de mim
ei, nessa manhã
me jogue inteira
eu te ligo e você me diz
que está jogando
coisas foras
imagino você jogando pedaços de mim
ei, nessa manhã
me jogue inteira
sexta-feira, 22 de junho de 2012
lua sem café com leite
Ler ao som de: Qualquer música que te lembre um grande amor.
Ana estava em seu quarto, deitada sobre a cama, janela aberta, pensamentos em fluxos, quando ouviu – olha a lua. era a voz dele. A menina levantou em um impulso. Sentiu calafrios. Sabia que estava sozinha e que Theo bem distante. Debruçou na janela, quase torceu o pescoço, mas não conseguiu enxergar a lua. Voltou a deitar, a voz voltou, Ana se irritou, já não falava com Theo há alguns meses, a voz insistia. – Olha a lua, Ana. Ana não acreditava em Deus, nem tinha medo de fantasmas, mas transbordava pavor da loucura, da paranoia. Ana pensou em Theo, nos olhos amendoados, nas vírgulas, no ácido, Ana ainda amava Theo, , mas estava finalmente conformada daquele fim. Provou a si mesma que o único jeito de seguir era sem qualquer resquício dele. Foram muitos gritos, pratos quebrados, noites e dias sem qualquer nexo, remédios (de todos os tipos), ligações exaltadas, insônia, até o ápice, que foi, sem dúvida, a rejeição. Uma noite de porre, muito choro, desconfiança, cachaça, e de repente ela se aproximou de Theo e ele disse – não, Ana. hoje não. Ela sabia por que não, ela imaginava...até hoje não tem certeza, nem vai ter. Ana chorou, saiu daquele espaço físico, chamou um táxi, e não foi embora, conversaram embaixo de chuva e embaixo de gritos. Foi uma das piores noites de sua vida. Nem seu olhar clínico pra cenas de cinema foi salvo. Só chorava, andava para os lados, fumava um cigarro que apagava toda hora, afinal, chovia muito. Os dois encharcados – a que ponto chegamos. Pensavam os dois. Aquele desconforto, aquele gosto amargo. Ele conseguiu fazer com que Ana desistisse do taxi, entraram, gritaram na cozinha, mas não gritaram entre eles, gritaram para eles mesmos, gritaram de desespero um para o outro, sempre foram, antes de qualquer coisa, bons parceiros. E naquele instante, Ana precisava de Theo e Theo precisava de Ana, mas era impossível, cada palavra sangrava. Dormiram juntos. Abraçados. Ana tentou acreditar que no dia seguinte, iriam almoçar em um restaurante japonês e em seguida passear no parque. Amanheceu, logo se arrumaram e saíram pelas ruas da pequena cidade, não se falavam muito, apenas algumas farpas, não restava muita força. Pegaram o mesmo ônibus, ela decidiu fazer um caminho mais longo para ficar mais tempo com Theo, mas o assunto só doía, a presença só estilhaçava aqueles bichos. Desceram, eram um dia ensolarado, estavam em uma esquina, ele, de violão nas costas, ela, cachecol e boina vermelha, ambos cansados, machucados – vai até o outro ponto comigo? ela sabia que se fosse, voltaria chorando, aquele caminho, aquele parque, aquelas malditas lembranças... – não. não vou. Nem me lembro se existiu algum abraço, na minha memória, vejo uma tentativa de interação frustrada. Ana respirou fundo e sentiu que daquele dia em diante, não haveriam mais tentativas. Ela havia finalmente se esgotado. Não era questão de orgulho, muito menos de valorização própria. Era a dor, que invadia demais o corpo dos bichos. Ambos haviam chegado a extremos, aos cacos mais cortantes, ambos haviam bebido demais, chorado demais, tentando demais. Agora, observando os passos da menina indo embora, lembro-me daquela frase do Caio Fernando Abreu “Não temos culpa, tentei, tentamos.”. Ela não pensou em nada, nem no autor, nem em mim, apenas seguiu seu caminho sem chorar. Passeou com cachorros, não retornou a ligação e fez da raiva uma grande amiga. Seguiu. Depois daquele dia, não encontrou mais com Theo, nada, ligações, nem por outros aparatos tecnológicos. Ele foi viajar, ela ficou sabendo, não comentava mais de Theo, não escrevia mais sobre Theos (há muitos anos deixou de escrever sobre Theo). Não chorava mais. Às vezes, talvez, um pouco depois, algumas lágrimas e só isso. Mas sonhava, sonhava toda noite. Ana não tinha mais vontade de correr para casa dele, mas queria saber se estava bem, se estava comendo frutas, ou se estava muito magro. Entretanto, ela bem sabia, que se houvesse qualquer interação, o suposto equilíbrio seria estilhaçado mais uma vez. Parecia que tudo estava pairando...em suspensão..um fio invisível...Mas de uns dias para cá, ela se assustou, encontrou tantos amigos com novos namorados, parceiros, seja o que for, amigos desses que bebiam cerveja no bar sempre que conseguiam, apesar das cidades diferentes, das faculdades caóticas, do tempo ausente, amigos esses que namoravam entre eles, amigos esses que não se veem há tempos. Ana começou a sentir medo, mas não tinha coragem de sustentar nenhuma afirmação. Ana sentia saudade de seu parceiro. Lembrava sim, de todas as noites de brigas, mentiras, pequenas omissões, paranoias, repulsas e de como aquela relação estava se tornando cada vez mais doentia e repulsiva. Mas ainda assim, sentia falta de como Theo a fazia rir, gargalhar. Não tentava mais sobrepor os dias deliciosos aos repulsivos, não tentava mais nada. Vivia com medo, de que de um dia pra noite, voltasse a chorar compulsivamente, voltasse a querer, vivia com medo de que aqueles dias fossem uma mentira bem construída, isto é: de que todo aquele papinho de conformação, de realmente-não-vamos-morar-juntos-nem-teremos-um-gato-gordo, fosse uma bela enganação. Mas por hora, não era isso, por hora, ela sabia, ela sabia que iria seguir. Que em breve teria de se acostumar com ele e mais alguém, mas ainda não pensava tanto nisso, não bebia a dose de suicídio cotidiano, ainda. Mas às vezes a imagem vinha, aquele café, pão com manteiga, bicicleta, alguém morando com Theo, dividindo a cama, ouvindo os anseios, mas logo (?) passava, - a vida é grande, a vida é grande. dizia sempre. A vida é tanto. Só sei que de um tempo pra cá, Ana enxergava Theo, mesmo que fosse no mundo das ideias, gostava de saber que ele estava ali, por perto, gostava de imaginar que naquele instante ela sabia mais ou menos o que ele estava fazendo. Às vezes ensaiava um diálogo, mas logo lembrava do ciclo de desastres que poderia desencadear. Ana e Theo, bichos machucados. E foi ontem que deitada, ouviu a voz do garoto – olha a lua. olha a lua Ana. Do outro lado da cidade, ele não ouvia nada e muito menos, dizia. É verdade, sim, como Theo mesmo comentava, escreveram juntos um instante de suas partituras, costuram com pele, sangue e risos, misturaram, brincaram no parque, caíram no chão, lúdicos ou não. Mas Ana e Theo não tinham nada de especial, o amor deles não era maior do que o dos outros, nem a dor.
Theo fumava uma erva e preparava um café, enquanto a Ana tratava de se levantar e foi providenciar um copo de leite quente. Café com leite, sem lua e sem muito drama.
Fim.
Com muito amor, Ana T.
Três de Agosto de Dois Mil e Doze às três horas vinte e dois da manhã.
Câmbio/Desligo
quarta-feira, 16 de maio de 2012
reticências contaminadas
Para ouvir ao som de: Ave, Lúcifer - Os Mutantes
contágio
contágio
nos contagiar
com o sangue que habita
a lâmina afiada (sem qualquer afinação)
contaminar a nós, que já somos tão contaminados
espalhar a nossa angustia, o nosso amargo - o que em nós queima - o que nos tortura
sentir o sangue denso - correndo pelas veias entupidas. tentando correr - mas não consegue. denso e lento.
arde
e nós, transbordando o peso
tentamos
usar das palavras, dos gestos
para destruir
o silêncio que sufoca
e desde quando formar sílabas
em formas de som
alteram a ausência do meu tesão?
penso
canso
enjoo do movimento
deito na cama e tento dormir
o gosto amargo continua
em meus travesseiros
colchas
vivo entre lugares, uma espécie de
limbo quente, emaranhado de tédio
e passividade
nem puta
nem santa
nem viciada
nem sóbria
percorro
recorro aos deuses
com os olhos entreabertos
o gosto amargo é contínuo
o cheiro doce me enjoa
o desespero não cessa
a ternura não finda
tropeço
mordisco a última pele
e adormeço.
domingo, 13 de maio de 2012
música para um domingo frio
Se Puder Sem Medo - Oswaldo Montenegro
Deixa em cima desta mesa a foto que eu gostava
Pr'eu pensar que o teu sorriso envelheceu comigo
Deixa eu ter a tua mão mais uma vez na minha
Pra que eu fotografe assim meu verdadeiro abrigo
Deixa a luz do quarto acesa a porta entreaberta
O lençol amarrotado mesmo que vazio
Deixa a toalha na mesa e a comida pronta
Só na minha voz não mexa eu mesmo silencio
Deixa o coração falar o que eu calei um dia
Deixa a casa sem barulho achando que ainda é cedo
Deixa o nosso amor morrer sem graça e sem poesia
Deixa tudo como está e se puder, sem medo
Deixa tudo que lembrar eu finjo que esqueço
Deixa e quando não voltar eu finjo que não importa
Deixa eu ver se me recordo uma frase de efeito
Pra dizer te vendo ir fechando atrás da porta
Deixa o que não for urgente que eu ainda preciso
Deixa o meu olhar doente pousado na mesa
Deixa ali teu endereço qualquer coisa aviso
Deixa o que fingiu levar mas deixou de surpresa
Deixa eu chorar como nunca fui capaz contigo
Deixa eu enfrentar a insônia como gente grande
Deixa ao menos uma vez eu fingir que consigo
Se o adeus demora a dor no coração se expande
Deixa o disco na vitrola pr'eu pensar que é festa
Deixa a gaveta trancada pr'eu não ver tua ausência
Deixa a minha insanidade é tudo que me resta
Deixa eu por à prova toda minha resistência
Deixa eu confessar meu medo do claro e do escuro
Deixa eu contar que era farsa minha voz tranqüila
Deixa pendurada a calça de brim desbotado
Que como esse nosso amor ao menor vento oscila
Deixa eu sonhar que você não tem nenhuma pressa
Deixa um último recado na casa vizinha
Deixa de sofisma e vamos ao que interessa
Deixa a dor que eu lhe causei agora é toda minha
Deixa tudo que eu não disse mas você sabia
Deixa o que você calou e eu tanto precisava
Deixa o que era inexistente e eu pensei que havia
Deixa tudo o que eu pedia mas pensei que dava
Deixa em cima desta mesa a foto que eu gostava
Pr'eu pensar que o teu sorriso envelheceu comigo
Deixa eu ter a tua mão mais uma vez na minha
Pra que eu fotografe assim meu verdadeiro abrigo
Deixa a luz do quarto acesa a porta entreaberta
O lençol amarrotado mesmo que vazio
Deixa a toalha na mesa e a comida pronta
Só na minha voz não mexa eu mesmo silencio
Deixa o coração falar o que eu calei um dia
Deixa a casa sem barulho achando que ainda é cedo
Deixa o nosso amor morrer sem graça e sem poesia
Deixa tudo como está e se puder, sem medo
Deixa tudo que lembrar eu finjo que esqueço
Deixa e quando não voltar eu finjo que não importa
Deixa eu ver se me recordo uma frase de efeito
Pra dizer te vendo ir fechando atrás da porta
Deixa o que não for urgente que eu ainda preciso
Deixa o meu olhar doente pousado na mesa
Deixa ali teu endereço qualquer coisa aviso
Deixa o que fingiu levar mas deixou de surpresa
Deixa eu chorar como nunca fui capaz contigo
Deixa eu enfrentar a insônia como gente grande
Deixa ao menos uma vez eu fingir que consigo
Se o adeus demora a dor no coração se expande
Deixa o disco na vitrola pr'eu pensar que é festa
Deixa a gaveta trancada pr'eu não ver tua ausência
Deixa a minha insanidade é tudo que me resta
Deixa eu por à prova toda minha resistência
Deixa eu confessar meu medo do claro e do escuro
Deixa eu contar que era farsa minha voz tranqüila
Deixa pendurada a calça de brim desbotado
Que como esse nosso amor ao menor vento oscila
Deixa eu sonhar que você não tem nenhuma pressa
Deixa um último recado na casa vizinha
Deixa de sofisma e vamos ao que interessa
Deixa a dor que eu lhe causei agora é toda minha
Deixa tudo que eu não disse mas você sabia
Deixa o que você calou e eu tanto precisava
Deixa o que era inexistente e eu pensei que havia
Deixa tudo o que eu pedia mas pensei que dava
quinta-feira, 10 de maio de 2012
poeira e Caetano
Para ler ao som de: You don't know me - Caetano Veloso
Magro
e menino, talvez a compulsão pelo cigarro atrapalhasse a feição de garoto, mas
não, mesmo fumando sem parar, seu rosto ainda era novo. Pele branca, cabelos
loiros em cachos. Gesticulava muito, nos intervalos, destilava indiferenças.
Olhos pequenos, um pouco assustados, não, não era isso, os olhares eram
atentos, queriam captar toda aquela multidão e seus pequenos gestos. A iluminação exacerbada atrapalhava o azul
dos olhos. Apesar das características angelicais, não parecia um anjo, era só
um menino com um maço de cigarros no bolso da calça. Maço este que tinha apenas
mais três cigarros, quando Pedro percebeu, o desespero o invadiu. – Aposto que
não existem lojas de conveniências por aqui, muito menos botequins. Até poderia
pedir cigarros para desconhecidos, mas gostava de ter seu maço em mãos, a
questão ia além do gostar, era necessidade, precisava daquele contato da pele
com o plástico do maço de cigarros brancos.
Resolveu
sair da multidão, com alguma dificuldade, conseguiu, logo sentou em uma
calçada, estava ligeiramente ébrio, acendeu um cigarro – ainda faltam dois.
Pensou. Ao seu lado um casal de mulheres trocavam carícias explícitas, qualquer
moralista se indignaria, qualquer malandro de chapéu demonstraria tesão, Pedro
não fez nada, talvez nem tenha reparado. Fazia tempo que Pedro não sentia. Havia
mais um de três meses que não escrevia, nem pintava. Ainda conseguia ler, mas
com uma freqüência bem menor do que a normal. Pedro agora gastava suas horas
com pequenas coisas, pequenas e incessantes atitudes chatas, as quais eu
poderia passar horas discorrendo aqui, mas são tão corriqueiras, que prefiro
que o leitor as imagine. (por pouco
tempo, de preferência, afinal, são entediantes...)
O
problema não era concluir tais ações, mas sim o tempo que gastava com elas:
demorava horas para ferver a água para seu chá, procrastinava o máximo que
podia para escovar seus dentes. Entre essas ações, roia unhas compulsivamente,
quando tentava ler mais de uma página, os dedos não agüentavam de tanto que
eram mordidos e sangravam, fazendo com que Pedro levantasse de sua cama para
buscar materiais para um curativo, que em poucos minutos iria arrancá-lo para
voltar a atitude de auto-flagelação. De alguma forma, roer os dedos lhe trazia
algum tipo de concentração.
Pedro
ainda estava sentado, fumava seu último cigarro, enquanto observava o desenho
das nuvens. Estava distante da cidade grande, achava que com esse afastamento,
conseguiria achar alguma dose de tesão. Estava em um festival, havia se perdido
de todos seus amigos, não achava justo que seu tédio os contaminasse. Depois
era só tentar alguma comunicação, ou ir direto para o local onde estavam
hospedados, lembrava bem o caminho, apesar daquela multidão efervescente.
Seu
cigarro acabou, apesar da ausência de tesão que existia dentro de si, se
interava bem com as pessoas, era simpático, sorria com freqüência. Seus amigos
estavam acostumado com seus sumiços, os mais próximos sentiam algo diferente
naqueles olhos. Não havia explicação plausível, estava tudo bem, sem mortes,
sem grandes rompimentos amorosos, a saúde, apesar da asma contínua, estava em
perfeito estado.
A
moça sentou ao seu lado, reparou nas feições de menino, também estava entediada,
roia as unhas compulsivamente, Pedro não a olhava, Pedro não estava ali, ou
estava tão inserido naquele espaço, que não enxergava mais nada. Ana não
conseguiu evitar o olhar fixo, Pedro era bonito, apesar de tão garoto. Ela
notou o isqueiro na mão, o maço vazio na outra, o olhar azul perdido. Não teve
dúvidas. – Quer um cigarro? Ele não respondeu, não ouviu. Ela insistiu. –
Garoto, você quer um cigarro? Pedro arregalou os olhos, parecia ter saído de um
sono profundo, assustado em notar que alguém estava tão próxima de seu corpo. –
Desculpe, estava distraído, quero dizer, sou distraído. – Tudo bem, isso eu já
notei. Mas você ainda não me respondeu, quer um cigarro? – Por favor! Ana
apanhou o maço, retirou um cigarro da bolsa, acendeu e começou a fumar, com a
outra mão, tirou outro maço fechado da bolsa (que era enorme, diga-se de
passagem) e entregou a Pedro. – Acho que você precisa mais dele do que eu. Ele
sorriu tímido e um pouco assustado, tentou parecer seguro. – A senhorita está
flertando comigo? Ana riu, chegou ainda mais perto de Pedro e bagunçou seus
cabelos. Tirou da bolsa uma garrafa de vodka e ofereceu ao menino dos cabelos
em cachos. Beberam muitos goles dela.
Deitados
em uma cama de solteiro, a janela aberta e muito frio, Ana vestia apenas um
casaco, não estavam abraçados, Pedro fumava um cigarro, a fumaça invadia o
quarto, a moça logo acendeu o seu. Era uma cena bonita. Ambos olhavam para o
céu. Não havia nada de romântico, não para eles. O sexo havia sido bom, o ritmo
de um mesclado ao corpo do outro, sede da pele alheia. Não era mais noite, nem
madrugada, o dia se aproximava aos poucos. Nenhum dos dois pregaram os olhos, nenhum
segundo. Trocaram algumas palavras em meio ao gozo, entre uma audácia e outro gole de vodka. Ela
dizia – Às vezes acho que a ausência de tesão paira suspensa no ar, e tira o ar
de todos aos poucos. Pedro achava interessante a frase, mas não dizia nada,
fumava o penúltimo cigarro do maço que a moça havia lhe dado. Ana continuava –
Sou muito pessimista, não escrevo há tempos, estou enjoada do emaranhado quente
que existe em minha mente. O garoto não a achava tão cética, enxergava prosa naquele
corpo. Sentiu vontade de desenhar, não por ela, por nada. Apenas sentiu a
vontade em sua boca. – Quando voltar
para capital, quero ler Leminski. – Talvez filmar um cair de folhas... – Você rói
unhas? – Compulsivamente. – Seus acentos me excitam. – Certamente você pontua
as frases de uma maneira deliciosa. Se misturaram sem perceber, se contagiaram
um do outro, contaminaram-se da saliva que transbordava o corpo. Riram enfim.
Tocava
o vinil Transa de Caetano, Ana se levantou, espreguiço seu corpo branco, procurou
sua roupa no chão, se vestiu sem pressa enquanto Pedro a observava e sentou
sobre a cama, beijou-lhe a boca e bagunçou seus cachos – Pedro, Pedro... depois
disso foi embora. Quando a porta a bateu, Pedro sorriu, sentia o cheiro da moça
em meio ao lençol, em meio ao seu corpo, era gostoso e isto bastava, a textura
da pele dela agradava a pele dele, era isto e nada mais. Lembrou vagamente das
poucas frases que trocavam, ela falou mais, ela tinha olhos bonitos, ela havia
dito para Pedro que achava seus cachos bonitos.
O
garoto dormiu cansado, depois de tanto, o corpo pedia sono. Acordou tarde, os
amigos já em casa, dormiam nos lugares mais diversos do quarto. Levantou,
colocou um casaco, fazia muito frio, apesar de ser bem magro, gostava daquela
temperatura. Lavou o rosto, encarou a face de menino no espelho, sorriu com os
olhos pequenos. Conferiu se tinha um trocado no bolso e foi andar sem rumo, em
busca de qualquer lugar com café e cigarros. Gostava do vento que batia em seu
rosto e da corrente elétrica que percorria seu corpo, sentia. O sol de Maio o
deliciava. Talvez aquela poeira suspensa no ar estivesse se desintegrando aos
poucos....talvez...Pedro sentia qualquer coisa, cansaço, que seja. Não era por
causa de Ana, não era por causa de nada e tinha total certeza disso. Lembrou do
sexo, do arrepio, e continuou com seus passos. Andou por um bom tempo,
encontrou um bar antigo, azulejo azul, senhores jogando cartas. Apanhou um maço
de cigarros e pediu um café. Sentou sozinho, buscou um guardanapo, pediu uma
caneta para o senhor ao seu lado e começou a misturar palavras com traços,
texturas com prosa, gozo com pele, desenhava letras e sílabas.
Sentia seu corpo - sentia seus
ossos – sentia qualquer coisa. Pedro enfim, sentia.
A chuva veio atípica, quase enxergava a camada
de poeira se desfazer.
Eu disse, quase.
Beijos, limão e mel
Ana T.
terça-feira, 17 de abril de 2012
Ler ao som de: Meu Refrigerador Não Funciona
- O que houve? – Eu queria ter te conhecido na infância. - E por isso que você chora? – Quem disse que choro? – Queria uma foto nossa do tempo do colégio. – Nunca estudamos juntos no colégio. – Por isso disse que queria. – Eu tinha exatamente sua idade quando te conheci, Ana. – Não funciona. – O que? – Meu refrigerador. – Quebrou há quanto tempo? – Eu tentei de tudo, não funciona. – Às vezes não adianta tentar. – Te estranho assim. – Como? Pessimista. – Ando amargo. Atormentando. – Eu sei. São os tormentos atrofiados. – Essa história novamente! Não a suporto mais. Ela acendeu o cigarro e não disse nada. – Ana. A academia nos enlouqueceu. – Sempre achei isso. – Agora não acha mais? A fumaça invadiu a sala de jantar. Os pratos estavam vazios e mudos. Transbordavam ausência. Ela sorriu de lado. – Não entendo porque você sempre me diz que tinha minha idade quando me conheceu. – Nem eu. – Você me abraçou no meio da Avenida Paulista e me disse isso. – São apenas números. – São apenas coisas, coisas. Pequenas coisas. Consolos, repulsas. – Ana, você não me respondeu. – Eu sei. Ela bebeu um gole de vinho seco e continuou. – Não sei o que acho agora. Vago desde sempre. Tropeço entre tantos nervos atrofiados. Não sei, Pedro. Talvez a academia seja uma grande desculpa para eu justificar minha frustração. Pausa. Continua - Eu disse frustração? Que expressão terrível. Visualizo essa palavra em todos os livros de auto-ajuda. Transporte público, estação Sé, livro de capa azul com um bela rosa: Supere suas frustrações em cinco passos! – Tormentos atrofiados... – Nervos atormentados, atrofiados..palavras..cacos... – Ana, respira. – Não funciona. – Quando eu não encosto no teu corpo... – Você vive fora desse emaranhado quente. – Não quero sair – Não quero, nem consigo. É um laço que se faz com a pele, e se tento soltar, rasga meu corpo. – Estamos falando do que? Ana não disse nada, encarou seu rosto pálido no espelho. Só enxergava a si mesmo, Pedro não aparecia. A casa era escura, os móveis estavam empoeirados. – Ana, e se eu tentar apertar o laço? – Não funciona, Pedro. Não funciona.
Ana T.
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