Dia engraçado, almocei com vinho num tom muito agradável, depois, durante a tarde, chorei muito e tumultuei o que estava sossegado. Agora vim ao teatro sozinha...não tão sozinha assim. Escuto as conversas..tento atentar aos silêncios e seus pontos. Reparo em minha postura. Nos últimos minutos, senti um alegria tímida, quase intocável. Mas já me sinto melhor, e é o que importa.
domingo, 2 de junho de 2013
sexta-feira, 8 de março de 2013
café, pena e culpa
Todos os meus cafés ficam terríveis. O gosto amargo é
presença garantida. Ou fica fraco em demasia, ou o líquido preto me engasga. Eu
não sei fazer café.
Ontem senti dó de uma senhora, ela usava uma calça preta
colada e uma blusa verde. – Não vou me desanimar agora. Ela dizia em um tom
triste. Eu, que nem na conversa estava, saí às pressas para não chorar em
público. O que diria aos outros? Que chorava por uma desconhecida? Seria então mais
uma prova da minha excentricidade diante aos olhos alheios, ou apenas uma
tentativa de exposição. Eu não me encaixo.
Quinta a tarde caiu um temporal, outro, subi as escadas rapidamente, cheguei ofegante, adentrei o espaço, derrubei meu lápis, todos
olharam, sentei. O gosto amargo era forte em minha boca, em minha pele e em meu
estomago. Senti vontade de vomitar. A tontura não calava. Me levantei, estava
tudo fechado demais. Entrei no banheiro, sentei no chão e chorei, chorei por
muito tempo, chorei sem respirar. E nada aliviava.
Terça reparei que ela estava no mesmo ônibus que o meu,
sempre conversei com a garota, entretanto, a grande maioria a taxava como uma
patética, como se não fossemos todos. Havia um tempo que não a encontrava, ela
me olhou, sorriu, eu sorri, mas não acenei. Fizemos o mesmo caminho, cada uma
em uma rua distinta. Entramos no mesmo ambiente, logo em seguida saí, queria um
copo de água e um bom fumo, entretanto, exagerei. Quando voltei para o espaço,
as luzes estavam apagadas, todos respiravam alto, e ela estava tão próxima, eu
olhei assustada, ela sorriu mais uma vez. Eu não queria estar ali, ela sabia
bem disso. – Me empresta uma caneta? – Claro. Eu agradeci com o olhar. O escuro
me incomodava muito naquele instante. Resolvi ir embora, ela faria o mesmo
percurso que eu. – Vou embora às dez horas, você vai pra casa? Fiquei estática,
morna e amorfa. Gaguejei. Pensei nos outros. Ela ali tão doce, e eu tão idiota.
Menti, disse que iria demorar. Ela me disse algo, eu não entendi, escutei
qualquer coisa como: eu sei que você me odeia. Arregalei os olhos e ela sorriu,
pela terceira vez. Não, a garota não disse absolutamente nada disso. Ela
levantou e foi embora, magra e morena. E eu ali sentada. Certamente minha
companhia não seria nada demais, a minha ausência não fez a menor diferença.
Mas aquela imagem me perturbou, eu tão patética, gaguejando. Ela tão mulher,
tão sozinha e pouco se importando.
Ando com medo de morrer. Minto, ando com medo que os outros
morram. Sinto constantemente um gosto amargo, um nó no estômago. Clamo pelo
toque, mas sinto repulsa em seguida. Não escrevo mais, mas ainda tento. Comprei
tintas e tela há dias, e elas continuam estáticas na segunda estante próxima a
porta. Às vezes quero chorar, mesmo, parece que vou vomitar, mas nada acontece,
fico engasgada, sufocada. É o dó, a detestável e intragável pena dos outros,
dos olhos cansados, da dona de casa que engordou, do professor que de tanto
gritar, perdeu a voz. Eu tento chorar e não consigo. Ora a pena falta, ora
vomito seu excesso. A tinta, mesmo que tao próxima, se faz ausente. O grito sobra, oco e sozinho.
Meu fumo acabou há sete dias. Estou enlouquecendo.
Meu fumo acabou há sete dias. Estou enlouquecendo.
Eu tento parar de tragar, mas engasgo. Penso no passado, nas
lacunas de repressão que engoli porque quis. E te culpo. Uma dose de culpa
acompanha bem o café.
- Por favor, acrescente ao café, uma pitada de pena e outra
de culpa. Assim, bem cristão.
Mesmo com o gosto ruim, tomei uma xícara inteira do meu
café.
Afinal, ele é meu, e só meu.
Ana T.
sábado, 23 de fevereiro de 2013
todas as cartas de amor são ridículas
sabe, ouvi dizer que ela vai ter um filho.
você quer um cigarro?
parei de fumar há uns cinco anos, desde quando paramos de
nos falar.
que curioso. bem na minha ausência, você larga um vício.
moça, escute bem, eu não falava com ele há tempos. eu fiz
tanto errado. doeu muito. depois de um mês sem trocar qualquer palavra, escrevi
um carta, não coloquei nem o nome, só o apartamento. o conteúdo da carta era
tão leve. talvez tenha sido isso que o enfureceu. não dizia nada das brigas,
apenas do cotidiano.não sabia se ele havia recebido. uma madrugada, outro erro, uma ligação.
a resposta foi péssima. ele sempre me diz que eu faço ele
sofrer com meu aparecimento.
ele leu a carta
e me escreveu
nossa
tão amargo. me senti tão mal. tão mal. ele ilustrou seu
sofrimento me contando dos novos vícios. vícios esses que eu apresentei, claro. ele reeiterou como a minha presença o fazia mal..
eu fiquei puto da vida
que coisa mais pesada.
e ainda no final, nas duas últimas linhas, ele dizia que
sentia um enorme carinho por mim.
sente é o caralho.
por que as pessoas insistem em admitir que o afeto morre, ou
até se suicida? não me venha dizer que sou sua lembrança mais bonita, pois não
sou, e tenho nojo de ser. de nos sobrou o pó. não me venha com teus livros de
auto-ajuda. quero que se lixe tua filosofia natural, eu sou louco por essa
cidade cheia de concreto, e aprecio um bom filme e um bom vinho.
e eu jamais, meu caro, me utilizo de você como desculpa para justificar meus novos vícios.
e eu jamais, meu caro, me utilizo de você como desculpa para justificar meus novos vícios.
que escrita amarga você tem. tenebrosa. e sabe, ela é ruim e feia. truncada. sem gosto e sem saliva.
ele sempre foi tão fechado e rancoroso. e eu errei tanto,
moça. tanto. senti todos os erros estourarem meus tímpanos durante tantas
noites. agora durmo um pouco melhor.
mas ainda estou tão incomodado, é uma sensação estranha,
algo quebrou, morreu na minha vida. algo deu errado. totalmente errado. hoje
não consigo pensar em nada sobre nós que me agrade. talvez eu não queria achar,
talvez não exista. essa mania chata de querer aproveitar qualquer experiência. essa doçura enjoativa
com gosto de remédio que envolve cada palavra do teu texto. cada ponto e
vírgula. e você ainda me pede pra que eu não direcione raiva pra tua nova garota. pois é, agora é garota. com o a no final. você me
alerta, me aponta, me indica. você e suas fórmulas entediantes.
sinto qualquer irritação. não deu certo. nada. nenhum segundo.
não vire a página, não supere. detesto a escolha aleatória das tuas palavras.
as nossas discussões eram tão inúteis. me afeta. entende? essa interação que
diante dos meus olhos não faz sentido. isso dói. essa coisa de não reconhecer
uma atitude sua do passado, que é tão novo. Me enjôo e vomito.
Sinto um gosto de café amargo..ah, os acontecimentos
históricos....
é isso moça, obrigada pela prosa, pode deixar que pago o
café.
até breve
espero te trazer outros papos, hoje estou tão seco. quase
não salivo.
mas passa.
vou comer um damasco.
até
sábado, 2 de fevereiro de 2013
quinta sem cigarro
Ana não conseguia entender, sentia a dor aguda – ou era aguada? – constante, desde seus vinte e um, às vezes surgiam algumas pontadas, como se facas bem afiadas a invadissem. Porém havia um mistério, Ana não sabia de onde vinha a dor. Apenas doía e doía. Ana chorava por horas, seu sono era quase ausente, e quando finalmente dormia, adentrava em sonhos perturbados. Ana tentava de tudo, coroas de espinhos, dança cigana, cristais nas veias, nas vértebras, ciranda ao luar, Ana insistia, dormia em pé, alongava seu corpo, fazia até voto de silêncio, mas nada adiantava. A dor persistia, e Ana já estava ficando cansada. Mudou seu caminho, alterou o colchão, fez misturas ousadas, e mais uma vez fracassou. Deixou de comer, esqueceu de voar. Ana já não se importava se o dia era Sol ou cinza. Ana não declamava mais poemas nas estações de metrô, Ana já na lia nem mesmo para ela. Ana já não tomava o trem, Ana já não inventa histórias. A dor era contínua, insuportável. Ana chorava, mas as lágrimas pioravam a dor. Como se fosse possível. Ana apalpava o corpo , quem sabe encontrava onde doía. Apesar de contínua, o nível da dor variava, em certas estações, Ana achava que iria morrer, talvez este fosse seu desejo secreto, a dor aumentava e aumentava e Ana quase não podia respirar. Outros dias, era quase como se acabasse. Entretanto, Ana não sabia o que doía mais, talvez ela estivesse acostumada com a dor por inteira a dilacerando, sabe-se lá onde. Ana vomitava, palavras e um líquido quente, cheio de emaranhados crus e desconexos. Ana procurou ajuda, todos passavam a mão em sua cabeça e diziam baixinho – Ana, Ana, vai passar. Logo passa. Mas não passava, ela deixou de falar. Às vezes alguns presenciavam uma crise, não sabiam bem o que fazer, nem Ana sabia. Estava tudo quieto, Ana deitada na rede, um céu azul, conversas leves, e de repente, um enjôo, vindo não sei de onde, e de repente uma tontura, fraqueza, e era a dor expandido seus níveis, as facas aos poucos a dilaceravam. – Se pelo menos eu soubesse onde dói, poderia me perguntar o motivo. Gritava Ana. Até que certo mês, se não me engano, Maio, Ana acordou de um pesadelo, levantou para lavar seu rosto pálido, e quando se deparou consigo, a dor havia sumido. Era como se parte de seu corpo tivesse sido arrancada. Não haviam mais facas, não havia mais o antigo mistério. Ana andou pelo piso frio, a luz de Maio era estonteante, Ana rodopiou, andou na ponta dos pés, Ana desceu as escada com pressa, Ana andou pelo parque, Ana tagarelou, fez amizades novas no metrô, encontrou velhos amigos, os abraçou como há tanto tempo não abraçava, Ana estava em si, sem faca sem pulsos machucados, Ana tomou sorvete de flocos, Ana se cansou, Ana quis dormir, mas tinha medo, medo daquela dor voltar. Ana queria não pensar, mas era impossível – Uma dor que vai de mim pra onde? Em que parte de mim ela estava? Pra onde ela foi? Ana dormiu e sonhou. Sonhou com cristais e vagalumes. Ana despertou cedo, não sentia dor, sentia-se tão bem. Ana saiu, ouviu o som da cidade, sua cabeça doeu. Ana correu, senti dor nas pernas, Ana resolveu sentar, suas costas doíam, Ana não entendia, a dor que era inteira e esguia havia sumido, porém, dores pequenas eclodiram. Ou será que Ana nunca havia as percebido? Tudo doía, seu corpo era frágil, Ana deitou sobre um jardim, o sol ardia sua pele, estava incomodada, será que as facas agudas e aguada haviam deslocado a atenção de Ana? Será que a dor tampara seus ouvidos? Será que Ana usava daquela dor para fugir das outras? Para fugir daquela dimensão que cheirava a tédio? E tudo se pôs a rodar, a rodopiar, como as rendas azuis do vestido que Ana usara naquele dia. Ana caiu, seus joelhos rasgados sangravam, Ana não entendia o sangue, tampouco aquela dor tão específica. Ana fechou seus olhos, pediu quase em um sussurro para que a sua companhia voltasse, e a acompanhante, vaidosa como era, adorou escutar daqueles lábios finos e vermelhos o pedido, quase uma súplica, aquela moça de mãos e olhos gelados atendeu o desejo de Ana, afinal, não poderia deixá-la sozinha nunca. A mulher de pele em vidro novamente voltara para Ana, a mulher do rosto em cicatrizes andava de mãos entrelaçadas com a garota, respirava teu ar, percorria suas veias, a sufocava aos poucos, Ana quase morria e a mulher pensava - assim é melhor, desta forma Ana não sentirá dor. Exclamava a Solidão. Ana T
quarta-feira, 23 de janeiro de 2013
no verso
ando a pé
hoje fui ao correio
das três cartas que enviei
duas não me identifiquei
- sem remetente, moça?
me perguntava educadamente a atendente
- sim, acho que não importa.
não, não me venham com crises de identidade
também esqueci de inserir o nome dos destinatários
só restou o endereço
em um pedaço de papel
talvez as palavras se percam por ai
que diferença faz
elas se perdem todos os dias
hoje fui ao correio
das três cartas que enviei
duas não me identifiquei
- sem remetente, moça?
me perguntava educadamente a atendente
- sim, acho que não importa.
não, não me venham com crises de identidade
também esqueci de inserir o nome dos destinatários
só restou o endereço
em um pedaço de papel
talvez as palavras se percam por ai
que diferença faz
elas se perdem todos os dias
domingo, 13 de janeiro de 2013
---------- Mensagem encaminhada ----------
De: Raquel
Data: 11 de janeiro de 2013 01:46
Assunto: Sufoco
Para: Carlos
às vezes eu acho que eu vou
surtar
desço os degraus da escadaria
da sé
pego o metrô às cinco e meia da manhã
encaro o pequeno apartamento
o restaurante francês, peço uma dose de cicuta
e espero comentários inteligentes
é tanta tristeza
engulo seco
e prossigo
ora eu recuo ora eu tropeço
um movimento contínuo
cíclico, eu diria
às veze eu tenho medo de
surtar
você já pensou
o quão insuportável é
ser taxado todo tempo de louco
- você é louco, menino
- coitadinho, ele é louco
- incomunicável
- um gênio
- mas não sabe falar
- olha ela
- tão lindinha com esses olhos puxados
- mas tão louca
- impulsiva
- quebra cinzeiros de cristal aos cinqüenta
- todos loucos
transbordam nas
bordas
das
arestas
de seus quadros
e eu
me contorço
engulo qualquer coisa
e acho
que engoli
o nó
em minha
garganta
mas ele fica, não some.
eu
os loucos em seus quadrados
perfeitos
suas arestas
eu com medo
medo de surtar
medo de ser louca
medo de sufocar por não ser
louca
por não transbordar
respiro
e tudo gira
talvez seja labirintite
ela grita
ele nega a transação
ela se desfaz - com raiva e desprezo - dos pequenos objetos
dele
os estilhaça
e eu procuro desesperadamente a razão
o motorista de ônibus não acelera
o louco cobre a mão com um pacote de pão
eu tinha dezessete anos
o motorista acelera
o pai grita
o filho vomita
e eu
com os meus quinze
achando que ter tv a cabo
é o grande problema
vomito junto com o garoto
qualquer coisa
que pareça
um emaranhado de culpa e tédio
ele grita
será que eu fiz merda de novo?
eu não durmo
com a cena
ecoa ecoa ecoa
acordo
sem paz
não se engane
dormi mais de doze horas
meus ossos doem
acordo em um tom mais claro
talvez cinza
mas sabe
ando cansada
de lamber a dor dos outros
de engolir a cicatriz
de beijar os pulsos cortados do menino
ando cansada
não se engane
não me venha dizer que é altruísmo
pois não é
não restrinja os meus labirintos ao seus costumes cristãos
talvez seja um vicio, algo como roer unhas
e colocar limão depois
não
também não me venha com psicanálise
masoquismo
não me venha com nada
quero dormir
decidi então
a partir de hoje
não chorar mais
não por isso.
um beijo amargo
Ana T.
segunda-feira, 10 de dezembro de 2012
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