segunda-feira, 26 de novembro de 2012

vinte e três

eu quero mais eu quero mais que o tempo eu quero mais que ausência que transborda da tua boca eu quero muito mais eu não quero restos nem reticências eu quero o que grita o que pulsa o que goza eu quero o tesão eu não quero essa medíocre vontade que nem ao menos saliva não quero teu toque falsamente cotidiano eu quero mais mais do que gemer por quinze segundos com tua mão abafando o som eu quero mais!
teu espaço já não me cabe não me vejo mais estilhaçada entre seus vinis eu quero mais do que essa parede ausente de mim eu quero mais! eu quero quebrar as paredes a vitrola quero o que escapa o que surta faz tremer o corpo! quero mastigar minha insegurança - engolir de uma vez o que não faz sentido - virar a dose dessa vontade de você, que só arranca meu sexo e minhas frações de tempo. chega! eu entendo. eu quero mais do que essa culpa careta. eu sei que já sustentei teu peso e desabei toda minha repulsa sobre você. e que é difícil rasgar a pele, mas sinto que você me segura, e eu te seguro, e quando recuou, a costura aperta. e você diz oi. dói. dói. dói. bom dia. vejo são paulo. estou seca. não quero esse grito que morre antes de transar. eu quero mais. eu quero outra pele. eu quero mais suor. maior gozo. eu fechei os olhos e estou descalça. vou sozinha. sem tons pastéis e sem a rainha elizabeth, que a propósito, se divertiu muito mais do que eu na tua cama.
e eu quero que se foda todos os meus achares e a atração cíclica e morna. já não tenho quinze anos, nem quero ter. eu quero mais do que esse sexo morno. chega de papai e mamãe. eu sei. eu sei. eu quero o excesso. a audácia do erro - da destruição. eu quero agora. chega. 
Acabou.


vale dizer que escrevi esse texto nas partes em branco do livro Tempestade e Ímpeto, do escritor Furio Lonza. o qual me inspirou muito, assim como o poema chamado O outrodo marginal Chacal.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

anotações de um café frio


um tá casando, indo morar na bahia, morar com a garota, abandou o gato, a casa de madeira, tudo, e foi pra lá estudar arte, morar com ela, dividir a vida, o outro esqueceu do que quer, vive triste, adoentado, vive enclausurado, isso é o que ele conta, eu não acredito não, acreditava até uns segundos atrás,  mas agora, quem sabe eu não acorde..eu disse não acorde? é bem isso mesmo. a outra vai casar na igreja, decidiu ser pastora. luiza virou evangélica, fiquei de luto por uns dias, mas depois decidir voltar a usar cores no corpo. não leio mais, nunca li, nem escrever, escrevo, sinto vontade, e logo em seguida passa, por preguiça ou qualquer coisa parecida. tomo meu café fro, e não fumo mais cigarros. até faço exercícios. mas continuo com o mesmo peso. ando fria, cética, e ao mesmo tempo choro por qualquer coisa, sinto algumas vontades caretas, é ausência de tesão. é ausência de tesão por alguém. não aguento mais esse papo, deve ser por isso que parei de escrever, as palavras são ensossas, mornas e escorrem. enfim, falar com você sempre afeta, afeta a pele. detesto finais, adoro as reticências, vá embora e não me mande um postal, talvez te encontre perdido em alguma rodoviária desse brasil..brasil com minúsculo sim...ou talvez não. talvez eu fique aqui nessa cidade que sufoca, mas já não sei viver fora desta massa amorfa acinzentada. olha, estou falando demais para variar..e você sempre em silêncio, eu sempre pensava: por que ele nao fala? por que? talvez eu não te deixasse falar. mas por que voce nao gritou? olhe, deixa que eu pago o café. boa viagem. siga sem dores. procure um médico para cuidar desse estômago. plantas medicinais não servem. bons caminhos...que teu corpo queime em brasa. sempre esse impasse. nunca me entrego. é tua voz que ecoa e não cala. é tua sangue barato teu vinho barato. quebrei a garrafa, cortei o corpo. é sempre assim. não te deixo ir. não vou. respiro mais uma vez, e digo. - vou continuar. só não sei pra onde.
um grande beijo. da tua Ana. T.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

que saco cheio
ele dizia
não havia a menor vontade
nem dele nem para com eles
os laços haviam se desfeito, enfim
chega
já não gostava mais dos risos
nem dos toques
a pele não transbordava mais nada
tempo de reclusão
ele pensou

estou tão cansado
pra vocês
mas ando cheio de vontade
pra mim

então
foi embora
e não escreveu nem ao menos
um bilhetinho
chega dessa história
sem endereço e sem cartão postal
quero mais é me esquecer
passar por essas ruas
e não sentir nada além
de repulsa
- cansei mesmo
todos enxergam
todos calados
esperando que ele vá embora logo

lembrou de mário de sá carneiro
"Não sinto o espaço que encerro
Nem as linhas que protejo:
Se me olho a um espelho, erro -
Não me acho no que projeto."

gritou alto
e foi embora
sem insetos gordos
sem meios sorrisos
sem nada pela metade
ausente
enfim

-chega.


babaca

assim
só pra tirar da boca
ela disse
- babaca
- você não está entendendo quase nada do que eu digo
- e nunca entendeu
- babaca
ela disse mais uma vez
e lembrou do livro "Vida Secas" de Graciliano Ramos, sabe-se lá pra quê por quê
- é chucro, não sente
só grita
nem isso

- babaca

e foi embora
cuspindo no chão
e sem olhar pra trás
pelo menos, dessa vez


sábado, 20 de outubro de 2012


é você quem vem
com teus corpo
sem gosto
e eu sempre caio
na tua

e depois
grito sozinha
sozinha
porque você percebe que ainda exerce
qualquer tipo
de afeto
e vai embora
já se sente seguro novamente

e pode continuar
por ai

sábado, 6 de outubro de 2012

café requentado


eu não aguento mais
eu já não suporto as culpas
os pensamentos tortuosos
os sonhos conturbados
não aguento mais a espera
nem a falta de ar
me pego sempre pensando naquele filme
que você não assistiu
eternal sunshine of the spotless mind
vejo aquelas cenas
e tenho vontade de fazer exatamente aquilo
apagar cada segundo
apagar parte me mim
matar
estilhaçar
pra não sentir mais nada
nem um fração sua no meu corpo
já não me lembro sua voz
nem o cheiro do teus cabelos
éramos tão lindos
sei que aqui destilo idealização
mas éramos lindos
com nossos cabelos ao sol
a luz
não sei mais como está seu quarto
a pequena pia
a escova de dente que você insistia em guardar em uma caixa de pasta
velha
já não sei como estão suas canecas
se você as quebra ou não
já deixamos claro um pro outro
que nos odiamos
profundamente
eu sei que você nega
eu também
mas sabemos que é isso
e isso me mata
hoje
acho que choro por isso
choro porque de algum modo não consigo te tirar de mim,
não consigo matar teu ódio
nem estilhaçar o meu
mas hoje morro principalmente
porque sei que o nosso ódio é mútuo

terça-feira, 2 de outubro de 2012

vinte e dois


era hoje
o dia
nada mudara desde seus vinte e oito anos
e finalmente era o dia
todos estavam feliz
a mesa repleta
ela ainda pensava nele
- aquele idiota
tantos anos sem trocar uma palavra
ele se quis presente
mesmo tão ausente
ele quis atormentá-la
afinal, ela merecia
palavras
afeto fingido
falso
da boca pra fora
ela não resistiu
apesar da leveza que escorria em tua pele (por pouco tempo)
mandou uma carta
com seus pulsos cortados
e algumas tripas
ele
percebendo que ela ainda o amava
que ela ainda pensava nele todos os dias de sua vidinha medíocre
respondeu sem medo
parabéns
parabéns
apenas isso
e mais nada
tudo o que você espera
de um grande amor


nem chorar
ela conseguiu
engoliu por fim
a última dose do amor medíocre
que lhe cortava