
Ler ao som de: Noite Severina
O jeito como ele segurava o cigarro, destilando certo desdém, atraia Ana, assim como os pulsos finos e a magreza escancarada, a fumaça a despertava, enevoando o ambiente e suas almas. Próximos, enquanto cegos pela ebriedade e atados pela fumaça que os cercavam, sentiam-se mesmo sem se tocarem.
- Ontem quando me deitei, não conseguia dormir, parecia que existia alguém ali, próximo, me olhando, não senti medo, foi sinestésico.
- Ontem quando me deitei, fiquei com uma sensação que estava te olhando Ana. Sentia-te tão próxima.
Os olhos dela ficaram maiores diante daquele comentário, se aproximou mais, talvez para escutar atenta o que os lábios dele diziam.
- Eu sei, foi estranho.
Ana olhou baixo, sempre desviava o olhar, uma timidez boba.
- Sentia você próximo, parecia que podia te tocar, mas sentia que se concluísse tal ação, teu corpo desintegraria diante dos meus olhos.
Ele quase sorriu, tentou acompanhar os olhos dela, e com uma voz baixa e calma falou:
- Eu sei Ana, é como quando tentamos beijar os lábios que não estão lá, pois tudo ia desvanecer, por isso só fiquei olhando, conferindo pra ver se você tava lá, mas sem fitar tempo o suficiente para eu notar que não.
Ela sorriu, fez alguma movimentação com as mãos, acendeu um cigarro, lábios finos, tragou.
- Sabe, estava tudo tão pesado, essa energia cósmica insustentável, e de repente essas nossas conversas me fizeram, fazem, tire o tempo dos verbos, vai além disso, muito bem, de verdade.
- As nossas conversas me parecem tão tão tão sólidas e atemporais, perenes demais para serem localizadas ou restringidas.
Ele sempre conseguiu expressar em palavras o que ela tentava descrever. Ana sentiu vontade de tocar a pele dele, estava tão próxima, o olhar resolveu parar de fugir, eles se olharam, se fitaram, a fumaça pairava, querência, desejo, pele e toque, quase.
Ela sorriu com a boca e com o corpo:
- Sempre fui viciada em escritos, vivo me confundindo entre o que escrevo e o que vivo, pairando entre as duas realidades, talvez perdida, viciada em tudo o que pode vir a ser um conto, nos toques, na respiração mudando de ritmo, mas ultimamente não conseguia sentir nada, era uma ausência insuportável de sensações, talvez com essas nossas conversas, eu tenha voltado a sentir cada palavra tua, cada palavra que sai da tua boca.
- Eu gosto de toques, não tanto como de sons, mas acho que por ter sentido você, não me dei por satisfeito somente com sons, e necessitei de toques.
- E eu fugi deles.
- Eu notei, Ana.
- Não entendo, eu gosto de tato, eu sou totalmente ligada nisso, pele, textura.
- Talvez eu tenha me enganado e Ana T. seja Ana Toque e não Ana Terna.
- Ou Textura, vai saber.
- Textura é inação. Algo que é. Sem vontade ou algo que o valha por trás. Toque não. Toque é atitude. É desejo, é Vontade.
- Mas textura, textura não se fala. A pele não gosta que saiam por ai falando assim, jogando ao ar a palavra: Textura. A boca tem que sentir, por mais clichê que seja. Lábio descobrindo a textura da pele.
- Toda descrição é vã. Acho que por isso não se deve falar de textura.
- Nem de toques, desejos, vontade
- É quase herege você excitar imagens e sons, atiçar-se olhos, ouvidos com textura, quando o único que realmente pode ser satisfeito por isso não está disponível: o toque.
- O toque como ação. Mas nós nos deliciamos com o quase, os poetas, escritores… que seja, qualquer que escreva, qualquer cena escrita é capaz de arrepiar.
- Todo escritor antes de mais nada é um sado masoquista. De se excitar e se martirizar pelo que cria e escreve. Principalmente quando não pode alcançar.
Ana se aproximou mais, o cigarro já havia acabado, ela sentiu vontade, desejo, ele sentiu o corpo estremecer, as pontas dos dedos pareciam se encostar, o arrepio emana da boca, mas percorre o corpo inteiro.
- Que metalinguagem absurda essa conversa.
- Ana.
- Que foi?
- Eu queria ter um toque seu pra lembrar.
- Não tem nenhum?
Dizia ela perdida entre suas memórias deturpadas.
- Tenho toques meus, vários até, quase toques também, mas não tenho um toque seu.
- Eu me lembro das tuas mãos em minhas pernas, e eu fingindo que não estava percebendo.
- E eu fingindo que você não estava percebendo. E eu sem saber o que havia em mim, o que me impedia de ser razoável e sair dali, ou ao menos tirar minha mão de sua coxa.
- Lembro-me vagamente da tua mão no meu pescoço, eu não sei se me fazia de tonta, ou realmente não estava entendendo nada, talvez um pouco dos dois.
- Eu me lembro da sua relutância, mas não soube interpretá-la.
- Nem eu explicá-la.
- Mas me pareceu justo fazer algo já que não me parecia possível ter seu toque, quis guardar tua textura.
- E guardou?
- Sim, resistiu inclusive a ebriedade, porem se desvanece.
- Eis a beleza do quase, do quase beijo, a perfeição pura. Perfeição insustentável.
A alça da blusa escorregou pelos ombros brancos, ela queria que ele descobrisse seu gosto, queria se arrepiar com a respiração dele, as palavras imploravam por descanso, a pele exigia o toque.
- Vontade de sentir teu cheiro. Bem ai, entre o seu pescoço e seu ombro esquerdo.
- Vontade de sentir você sentindo meu cheiro. Eu quase sinto teu toque, primeiro nas pontas dos dedos entrelaçando-se, teu cheiro, minha respiração em teu pescoço, tua mão em minha nuca.
- Mordisca a orelha, passa os lábios em direção aos teus, toque que escorrega e desce, orelhas, pescoço e ombros.
- Não beija.
- Provoca. Lábios descem até o ao pescoço, arranhar as costas, o corpo estremece.
Ana suspirava, acendeu outro cigarro, colocou a boina vermelha, tirou a boina, estava com a pele em chamas, o corpo quente, sinestesia escorria em suas veias. Sinestesia e vontade.
- Com boina ou sem boina? Escolhe.
Dizia ela tentando recuperar o ritmo da respiração.
- Com a boina, deixa eu me sentir o Bertolucci, te vendo francesa. Sim, eu sei que ele é italiano.
Quanto desdém, ele também havia acendido outro cigarro, o corpo dele também queimava aos poucos, queria sentir arder suas costas com os arranhões dela.
- Sinto sono.
- Deita comigo.
- Deito. Qual será meu gosto na tua boca?
- Algodão doce. Acho que imagino teu gosto em mim como algodão doce, sabor e textura.
- Teus lábios beijando meus ombros.
- Ana, quero tanto te abraçar.
Ele se aproximou, quase sentiam a respiração um do outro.
- Teu abraço me faz bem.
Ele sorriu, não era muito de sorrir, um sorriso doce, talvez um leve desespero no olhar.
- Parece que estamos presos ao segundo que antecede a língua descobrindo o gosto da pele.
- É. Quero o erro, respiro teu desejo.
Os lábios se convocam, estremecendo esquentando arrepiando, os dedos quase escorrem pelo corpo outro.
- Ana, e se eu tocar você agora?
- Eu desintegro.
- Melhor não descobrirmos as ausências, não ainda.
PS: Esse conto não é de autoria apenas minha, foi escrito em conjunto.
a foto é minha e deu trabalho.
câmbio/desligo.
beijos da Ana T.
quase beijos.
