segunda-feira, 12 de setembro de 2011

se eu fosse a Cléo...

e a casa a sufocou, as paredes também, queria respirar, queria ar, queria qualquer coisa que não fosse dor, dor alheia, tentava quebrar as paredes mas não conseguia,não conseguia, parou de tentar, as paredes ficavam cada vez mais estreitas, não respirava nem chorava, assistia em silêncio, sem gritos, sem lágrimas sem qualquer tipo de manifestação, ah..amor…esse mundo insano louco doente…

Cléo e Daniel, é…faz sentido, céus, faz sentido...

insônia e leveza

todo menino criança sapeca olhando pros lados e pra baixo e sorrindo sorrindo com seus dentes bonitos

todo magrinho correndo de um lado pro outro caindo sujando a roupa arranhando os joelhos ralando o cotovelo

todo perdido nessa multidão todo perdido por ter se achado em si se achado tão diferente



os dois brincavam rolavam na grama juntos subiam em árvores roubavam amores amoras lírios flores de lírio delírios morangos qualquer fruta madura roubavam pipas coloridas dominós cartas de papel riam riam rodavam

giravam entre estrelas maduras e cometas giravam entre cachos e elos azul e amarelo



gargalhadas de sol

os dois se experimentaram

mesclados misturados

pele gosto

fruta fresca

matar a sede na saliva

e a fome na carne



correram pra assistir o sol indo embora

o lugar era tão alto

até os passarinhos destilavam medo

voaram alto

muito alto

os dois

às vezes olhavam pra baixo

tontura tortura

labirinto

sem medo do tombo

sempre esfolavam os joelhos

era só um pouco de sangue



deitaram na grama

o céu estava lindo

imensidão infinito

roupas rasgadas

sujas

gostos mil

cheiros

ela fazia do abstrato palpável

ali

tocando a pele dele

ele suspirava respira expressava

dormiram enfim

de qualquer jeito de um jeito qualquer

ele a abraçava

ela inquieta

mas gostava

queriam ficam mais próximos

mais próximos



outro dia outra noite outro amanhecer

qualquer coisa

que seja

já faz tanto tempo que eu não me lembro

eram tão novos

tocava Caetano trem das cores

outro dia

na pele gosto sexo nicotina terra poeira poluição saliva

falas justificativas histórias amores mancha de amora

doses de tristeza insegurança

doses generosas de leveza alegria que derrete desmancha na boca oscilações térmicas

estavam estáticos

tragando um o olhar do outro

já que o cigarro havia acabado

a boca estava seca



água caindo percorrendo a pele

gostaram da idéia

correram

sol da manhã entrava pela fresta da janela

estava atrasados

ah rotina

nem ligavam

riam riam sem parar

ele olhou desconfiado

ela nua

página em branco

- espera, nós só sabemos fazer coisas que nos sujam…e agora vamos…sabe…tirar…limpar…isso é estranho.

parecia que ele tinha medo da água roubar deles aquela ternura roubar deles tudo aquilo nada daquilo roubar a alma roubar um do outro ele de si mesmo

ela ria…ria da expressão das falas..ria…crianças. não me lembro bem o que ela falou..talvez tenha sido algo – água caindo no corpo…água é energia em movimento, vida…vem…

estendeu a mão e ele sorriu

água corpo pele riam muito muito beijos entre gotas e risos ternura vontade

se abraçavam se afastavam – deixa eu lavar o seu cabelo!

a luz tão bonita, céus, quanto tempo faz...luz de sonho bom. ai ai que saudade faz tanto tempo

depois ou antes não sei não lembro detesto ordem linhas cronológicas

ele fez café ali na cozinha, ela sentada na cadeira observando seria sonho? devaneio delírio fantasia…ele ali todo menino procurando açúcar filtro e ela não sabia bem onde ficavam as coisas ela não sabia bem onde ela estava

esperaram o café ficar pronto jogados no sofá, fazia frio, janela aberta

uma gata aparece desconfiada silêncio

ele destila um olhar pra bichana

[eu quase consigo tocar esse olhar – um fio invisível e eterno]

a gata desvia

um carinho quase de longe um carinho nada efusivo um carinho dele um carinho leve

gata desconfiada, ela se afasta

carinho

ele esboça um sorriso

[eu consigo tocar esse sorriso]

a gata encosta a cabeça em suas pernas cruzadas

os olhos dele quase se fecham, tão pequenos

carinho da gata carinho dele

a gata se afasta

luz linda

aquele cheiro pairando era o dia que começava



canecas cigarros varanda amanhece

diálogos

falares



ela arruma a cama

ele joga seu corpo leve

ela sorri fingindo de brava

ele a puxa pela cintura



quem dera se pudessem procurar por mais frutas maduras

as despedidas deles são eternas

nunca é uma despedida

elas não existem

são farsas

esquece carteira

cachecol

leva a blusa no corpo

toalha escova de dente

qualquer coisa

esquece o que não é dela

dele

esquece um cacho

outra textura



estou quase como eles

levantaram sei lá quando

esqueceram mil coisas

voltaram

o espelho os encarou

crianças

sapecas



apagaram a luz

bateram a porta

ela esqueceu de trancar

e saíram

cada um para um lado


mentira


beijo da Ana T.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

culpas cotidianas


Oi. Bom dia.
O café está quente, mas acho que ficou muito doce pro teu gosto.
O pão está no armário, comprei logo cedo. Espero que sua dor de cabeça esteja um pouco melhor. Tem remédio na prateleira, dentro da bolsinha branca.
Descanse, tem muitos livros no quarto, filmes também, mas talvez seja bom você descansar um pouco os olhos. As tintas estão no quarto de fora, mas não sei se o cheiro lhe faria bem. Sei que detesta que falem o que você deve fazer, como agir, mas…mas…tua falta de ar me assustou demais. Foi desesperador entende? Não, claro que não.
Tem algumas telas no meu armário, pode pegar o que quiser. Vou tentar achar seu cavalete dentro daquele caos. Há tanto tempo que não pinto. Bom, não vou demorar, preciso resolver algumas coisas na agência, estou tão cansada de lá, sei o que você me diria, não, não, não dá, eu não posso largar aquele lugarzinho medíocre empresarial e ir vender artesanato&telas&poesia e um pouco de nós na Bahia, morar pra lá, não, não, não dá, eu não posso. Eu não quero, é conta pra pagar. Eu sei, eu sei, você vai falar que me vendi, ou não, vai falar que eu nunca precisei disso, em que segundo será que eu me tornei assim? Talvez naquele outubro em que tomamos tanto ácido tanto que achei que fosse endoidar de vez e eu não tinha nenhum puto no bolso pra nada, e ainda restava um pouco de vergonha na cara pra não pedir pros meus pais. É. eu sei…Talvez se eu…será que se eu tivesse ficado pirada eu iria ser mais eu? Será que se eu não tivesse soltado a tua mão, tu ia entrar nessa? Porra, eu não agüentava mais aquilo, não agüentava mais. Meu corpo…nosso corpo…Eu sai correndo mesmo…te deixei naquele quarto cheirando…a sexo…cocaína…Eu te deixei porra, mas você me assustou demais com aquela loucura, porra! Você disse que ia me trancar no quarto, você queria me trancar! Era pior que internação. Não, isso não. As malditas borboletas que você insistia em enxergar nos meus cabelos, borboletas azuis..amarelas…as pretas…ah céus..as pretas…Porra, você me acordava no meio da noite pra discorrer horas e horas sobre a porra daquela espaçonave. Eu sei, eu sei, meu deus, como eu te amava e como doía, e como me dava tesão transar com você a noite inteira, ficar com teu gosto no meu corpo todo, caralho, como eu gostava. Porra, era tudo junto. Por que eu fui tão fraca de te largar lá? Mas era isso ou eu ia…você sabe que eu ia..você lembra dos meus pulsos…da quantidade que eu cheirava sem parar…Eu não ia agüentar, meu menino..não ia suportar ficar trancada nenhum dia naquele caos sem luz (porque você gastou a porra da grana com cocaína!).
Aquele cheiro cara, a gente deixou o jardim morrer. Por quê? Eu amava tanto aqueles girassóis da cor...da cor…Eu te larguei…você não me ouvia eu não te escutava suas paranoias minhas mentiras. E tudo girava torturava…e eu não achava mais o teu som nem tua pele na cama era dor e sangue porra…você não vai me responder, você foi parando de falar..silêncio ensurdecedor…você não lembra…
Tem um restaurante vegetariano que entrega até às 14:00h, é uma delícia. O telefone está colado na geladeira, o dinheiro em cima da mesa.
Ah, se a gatinha começar miar muito, dê biscoitos pra ela, estão no armário da cozinha.

Um beijo, até a noite (que nunca vai chegar.)
Mais beijos (aquele eu não te dei)

Da tua, sempre tua
Ana T. Aveia e Mel.

sem dor sem sangue
sem hoje

PS: inspirado em tanta coisa, referências mil – Caio Fernando Abreu, Arnaldo Baptista, e todos nós e tudo isso e nada disso e ....

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

estilete de vento

apaga a luz
bate a porta
acende um cigarro
senta no chão
abre o livro
a luz é pouca
os olhos se esforçam
cansados
enxergam a primeira linha
depois se fecham
estão pesados
insistem
doem ardem
a pele reclama do frio
a alma também
fecha o livro
pega no bolso um bilhete
dá um trago no cigarro
quase apagado
lê o bilhete
pela centésima vez
sente o gosto de lágrima
levanta
acende a luz
abre a porta
espera!
não tem como acender a luz sem antes abrir a porta
será mesmo?
abre a porta
acende a luz
mas não se encontra
senta no chão
livros roupas álcool
cheiros
sexo
ternura
tontura
mas não se encontra
deita na cama
sem lençol
está calor
sente um frio
absurdo
está quente
desconforto
no próprio corpo
respira
suspira
abre fecha os olhos
insustentável
tosse
acende outro cigarro
birra
pura birra
tosse mais
mas não se encontra
nem na cama
nem no ar
quer chorar
mas não consegue
não sente
pensa na dor alheia
pensa pensa
mas não sente
talvez dor física
pensa em se cortar
mas faz tempo
tanto tempo
apanha o estilete
faz um corte leve
escorre um fio de sangue
mas ainda assim
não se encontra
tontura
tortura
segue
sangue
sempre se achou tonto
caos
buzinas
São Paulo
tudo grita
levanta
caminha em direção a janela
enxerga a cidade
com suas luzes e dores e brigas e desencontros e amores e ternura
enxerga entre as grades
de plástico ou ferro
visíveis ou invisíveis
entra no banheiro pequeno
já está sem roupa
abre o chuveiro
água gelada
treme muito
enfim sente algo
respira forte
água caindo na pele branca
nos cabelos em cacho
não tem toalha
caminha molhado
se joga na cama
treme muito
se cobre
ainda não se encontra
apesar de sentir
tontura
tontura
tudo gira
pensamentos falares buzinas poluição cigarro nicotina língua sexo pele textura gozo gosto
vento
ventania
tempestade
não controla seus pensamentos
era isso que queria
quase uma inconsciência
comprimidos coloridos
não lembra
não recorda
os olhos não sustentam o peso
fecham
enfim dorme
mas ainda não se encontra
porque sonha


segunda-feira, 8 de agosto de 2011

vick vaporup

Cai na escada rolante e ganhei balas Valda no metrô, sinto que minha tolerância com certas pessoas está cada vez menor, sinto uma preguiça alheia, essa bem comum aos arrogantes. Detesto algumas socializações, as pessoas declamando seus saldos bancários e viagens internacionais, me auto-afirmo o tempo todo, às vezes me sinto descrente de tudo, de todas as relações humanas, outras vezes, acredito no amor livre, jamais como uma utopia, mas até chego a acreditar que respiro e vivo essa liberdade, experimentações deliciosamente desnecessárias e libertárias.
Cheguei atrasada para o trabalho, como de praxe. Pintei minhas unhas com corretivo e passei caneta por cima, tentei escrever e não consegui, no caderno e não nas unhas, abri um livro e fracassei na primeira linha, sinto muito sono e dor de cabeça, meu remédio acabou ontem, minha pinga também, faz muito frio e estou sem blusa.
Nunca gostei de crianças, mas ultimamente tenho reparado tanto nos olhos redondos e expressivos de algumas delas. Esses dias eu estava no metrô, todos falavam sem parar, não escutavam uns aos outros, uma linguagem empresarial detestável e cheia de adjetivos que pareciam sair de livros de auto-ajuda, já estava tão entediada que o ar foi me faltando, procurava qualquer coisa com os olhos, até que encarei uma pequena, olhos inquietos, sede plena, sem dúvida, ela era a mais lúcida daquele lugar.
Mexo no celular o tempo todo, nada acontece, talvez com as unhas pintadas de corretivo e caneta, pare de roê-las, as minhas lentes estão péssimas, a visão está muito embaçada, sinto muito sono. Nenhuma caneta pega, a internet está extremamente lenta e não me lembro do teu telefone.
Faço o mesmo caminho todas as manhãs, passo pela mesma loja de eletrônicos, sinto que esse lugar é a metonímia perfeita do mundo empresarial na minha cabeça, talvez até da vida de muitas pessoas. Objetos, produtos, mercadorias, felicidade, alegria, comunicação instantânea.
Penso no gosto de Agosto, lembro-me da mensagem que um dia você me mandou, “Agosto, que gosto tem?” e eu escrevi naquele caderno azul: “Agosto tem gosto de fim, fim de café, último cigarro último trago, gosto em vão, gosto frio, fumaça e cinza de cigarro. Agosto deixa fraca deixa fraco o corpo propício a vícios, Agosto tem gosto de ausência.” Acho que nunca te mandei, isso já faz tanto tempo, nem sei o motivo de ter me lembrado. Lembra que levei meu vick vaporup pra você? Gostava daquele cheiro, gostava daquele cheiro na tua pele. E das folhas de hortelã? O chá estava muito bom, pena que apanhei poucas delas, quem sabe não te encontro e te entrego mais...quem sabe...será que você ainda freqüenta o Belas Artes? Ouvi dizer que fechou...coisa triste, não te imagino em outro cinema, não nos imagino em outro cinema. Será que você ainda desce e sobe a Augusta e bebe na calçada? Sabe...às vezes eu ando com hortelã na mochila..quem sabe...quem sabe...
Não me desligo não me desconecto, sinto que estou sempre presa, detesto admitir que não consigo fazer certas coisas que só dependem do meu auto-controle, tomei um banho extremamente quente, minha pele ficou avermelhada, preciso arrumar meus cadernos, preciso me encontrar nesse caos, sempre perco tanto tempo me organizando, testando quais canetas funcionam.
Ontem senti tanta vontade de te ligar, assim como quem não quer nada, perguntar da vida, do tédio, se você anda bebendo demais, se continua tendo pesadelos horríveis, se a tosse passou....se está indo trabalhar...não, não quero usar desses afazeres pra te controlar, eu só queria saber mesmo...não gosto de te imaginar com a saúde fraca, sei que você detesta que eu tenha essa imagem de você. Lembro quando dormimos juntos e eu tive febre, e você cuidou do meu sono e da minha alma, e lembro-me bem daquela vez que fomos acampar com uns doidos que conhecemos no boteco, lembra disso? Pensei que fosse acordar sem rim, mas não, foi delicioso, vi minha primeira estrela cadente ali, eram duas, sim, nos havíamos tomados ácido, mas era real, tenho certeza disso, assim como você não soltou minha mão durante a noite e não teve nenhum pesadelo.
Recebo mensagens suas e não tenho créditos pra responder, ontem quis falar sobre as relações baseadas em consumo, como resistir? Vamos fazer café e carregá-lo conosco para não termos que gastar absolutamente nada? Nos sempre falamos disso, pirataria, que seja pirata. Seja um pirata. Seja marginal.
Estava pegando água na geladeira e ouvi aquele barulho de chave e porta abrindo, por um segundo, pensei que fosse você, talvez eu tenha pensando conscientemente, sabe? Quero acreditar que esse barulho seja você. Mas não era ninguém e eu sabia disso, ora.
Lembrei dos teus olhos fechados, gosto muito da tua expressão, é tão serena e prazerosa, talvez seja plena. Gosto muito dos teus olhos, teu beijo me refresca, arde esquenta.
Quero um suco de abacaxi com hortelã, quero deitar na tua cama e ouvir teus discos antigos, quero a leveza do meu corpo com o teu. Eu não quero me negar, é isso, são todas essas sensações, misturadas mescladas, cheias de intersecções e vazios.
Um beijo.
Aveia e mel. E limão.
Ana T.

PS: Vale lembrar que nem todas as frases são minhas, tenho sede das conversas cotidianas. O que escrevo nunca é só meu, ou até pode ser, mas Fernando Pessoa já dizia “Eu sou muitos...”.

Câmbio/desligo.

domingo, 7 de agosto de 2011

suicídio

"um ano tempo não diz nada o que diz é a pele"

Agosto começou cinza e frio. Comprei o último maço de cigarros e tomei um café.

Não dormi quase nada, falei teu nome durante a madrugada, não te achava na cama, mas eu nunca te acho. Não sei por que ainda insisto em procurar.

Tive sonhos conturbados, a tosse não me deixa em paz. Faz um ano que morri de intensidade, bebi incessantemente do teu corpo, arranhei tuas costas até sangrar e me diz o que ficou? Tudo.

Parei de pensar nisso, mas era a mesma cama, o lençol no chão, a lua, janela aberta, lembra da pneumonia que pegamos depois de tudo isso?

Porra, como doeu te ver indo embora, porra...doeu demais!

Lembro de você sentado na minha cama, comigo no teu colo, tentava não chorar, você me beijou o rosto, me abraçou o corpo e a alma e disse que era pra sempre. E é! Ou pelo menos foi. Sentados no chão fumando um cigarro, qualquer assunto, qualquer bobagem.

Porra, eu não me lembro direito, isso me mata, memórias criadas me assombram.

Lembro do teu gosto misturado com o de cigarro, falávamos da fumaça, falávamos de qualquer coisa, literatura russa, química orgânica, jogos de carta, dança contemporânea, bossa nova, vícios, sexo e fizemos sexo a noite inteira, e eu não me lembro, eu não me lembro como eu gostaria de me lembrar, os nervos já estão demais de gastos.

Talvez eu só não consiga mais sentir a flor da pele. Talvez, eu disse talvez....

Porra, foi tão forte, tão cheio de reciprocidade, depois acendemos outro cigarro, o quarto estava uma bagunça, meu ar faltava, encontrava-o na tua boca, não parávamos, era o terceiro dia, havíamos perdido a noção do tempo-espaço, o corpo fraco, sem qualquer tipo de alimento, sem água nem sol. Era só teu corpo no meu, um ritmo eufórico alucinante, não conseguia sair dali, concentração plena no caos, no teu corpo esguio, sem possibilidade alguma de tédio, nos arranhávamos como se aquelas marcas fossem deixar à flor da pele todas aquelas sensações eufóricas e prazerosas.

Pitadas de masoquismo e alguma dose de sadismo, SIM, com a gente é pele, tesão, era forte demais porra. Era sintonia plena, alma e corpo.

Ai cara, eu te mandei ir embora e você foi, depois de tanto tempo, você foi embora, até hoje eu não entendo o motivo de ter saído de casa, me olhei no espelho pálida, o corpo fraco, tontura, sexo, eu queria mais... não tínhamos pressa, nunca tivemos, depois que li tua mão eu já sabia, mentira.

E ai a gente saiu na rua, a luz na nossa cara pálida, poluição entrando nos pulmões, os cachos desarrumados, os meus enroscados nos teus, e eu apertava tua mão tão forte, quase a arranhava com minhas unhas roídas. E você me segurava com força, sentia teu corpo tremendo, olhares de censura por toda parte. Eu deveria ter gritado – VOLTA! VAMOS VOLTAR, PORRA! Mas já estava tudo tão sem nexo, o quarto já deveria estar arrumado, sem o nosso cheiro, o lençol esticado. Continuávamos tropeçando no corpo um do outro, aquela claridade insuportável, vozes&buzinas&gente-gritando- qualquer-coisa-sem-relevância.

O transporte público, nós dois sentados na estação de metrô, eu não conseguia falar absolutamente nada, chegamos, aquele lugar místico, encontros e desencontros escancarados, energia em movimento, ai você comprou sua passagem, e eu calada dentro daquele silêncio, tossíamos sem parar, escrevi teu nome, tua mão tremia tanto.

Eu te abracei tão forte com toda a energia que faltava no meu corpo e você me abraçou tão pleno, e eu transbordei, a palavra tropeçou da minha boca, puxando a outra, e eu disse eu amo você, eu disse que te amava, e meus olhos gritaram, meu corpo não agüentava mais, e você gritou que me amava eu amo você.

E eu sabia que era verdade, apesar de nem saber mais o que significa essa palavra. Eu sentia que te amava de amor na pele e sentia que você me amava no corpo inteiro na alma inteira e você soltou meu corpo e eu o teu, e me veio um frio absurdo e você foi embora e eu fiquei parada, tudo girava, como as coisas podiam continuar acontecendo? Porra, as pessoas falando, o transito caótico, a moça falando que era proibido fumar naquele lugar, e eu não acreditava, fiquei estática por alguns eternos segundos, não conseguia exercer qualquer tipo de movimentação, até que senti teu cheiro no meu corpo, teu toque na minha pele, procurei você incessantemente em todos os lugares, e eu te via, mas era piração, delírio, e eu pirei e eu não dormia e me drogava sem parar, teu cheiro foi sumindo de mim, eu não agüentava mais, e eu procurava teus arranhões, qualquer fio de cabelo teu, qualquer coisa porra, qualquer coisa e eu não achava mais, o que eu achava era mentira, lembrança, ardia, eu arranhava o lençol, mas não encontrava tua textura nem respiração, era lembrança por toda parte e o meu ar foi acabando, fui sufocando, pirando na tua ausência, ai eu surtei inteira e plena, menti, era insustentável, inventei uma lucidez e me suicidei pela primeira vez.


Ana T.


talvez esse texto seja uma resposta para: http://livredosconceitos.blogspot.com/2010/08/pontuacao-falha.html

talvez....

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

perder meu corpo na tua boca [de propósito] com sem propósito

achar no teu corpo um gosto que te cala [te derrete, desmancha]