terça-feira, 12 de abril de 2011

Canoa Quebrada

Domingo, fim de tarde, praia, brisa boa, gostosa, acende, passa sem presa, olhar nos olhos, falar do cosmos.

- Sonhei que você era uma lembrança minha.

Tocava Novos Baianos, o Mistério do Planeta.

- Que bonito, Ana.

- Tu sabe que eu também achei? A luz meio amarelada, praia, parecia anos setenta.

Os olhos bem verdes sorriam, maduros e puxados.

- Eu como lembrança, sou diferente?

- Idealizado como de costume.

- Ana Ana.

- Teu sotaque ficava ecoando na minha mente. Teu corpo leve. Parecia que o Caetano cantava pra compor a cena.

- Que música?

- Trem das Cores.

Ele deitou no colo dela, Ana encostou levemente os lábios nos olhos verdes, fios de cabelo dificultavam a visão, o garoto não se importava com o que não enxergava.

- Aposto que você usava um chapéu branco.

Ela riu com o canto da boca.

- É, aquele mesmo. Talvez tocasse Acabou chorare e não Trem das Cores.

- Respirei eu fundo.

- Foi-se tudo pra escanteio.

- Lembra, Ana?

Ela respondeu com o corpo.

- E lembrança tem gosto?

Os olhos dela repousaram no ar.

- Tem sim, gosto e cheiro.

Ele gesticulou dúvida com as mãos.

- Gosto? Gosto da tua saliva com a minha, gosto da pele sabe? Cheiro era esse, esse teu cheiro aqui....

Dizia ela passando as mãos bem na volta entre o ombro e o pescoço.

Ele desmanchava doce, se ajeitando para facilitar o carinho.

- Mas gosto e cheiro e tato vinham ao mesmo tempo sabe? Uma sinestesia danada de boa.

- Sei não, Ana.

- Tu tá se sentindo condenado ao estado de contemplação plena?

- Talvez.

- Ana, me tira da lembrança?

- Todos os dias, e te faço presente em mim.

- Em nós. É cíclico.

- Tão gostoso.

- E leve.

-Ternura que desmancha o corpo.

- Ana, me beija.

- Eu beijo.

com toda aquela malemolência.


Beijos da Ana T.

domingo, 10 de abril de 2011

Errata do Fim

Injeta

Injetar

Injete em ti as esperanças de mim

Injete em mim a ausência de ti

Injetar de manhã

Arder à noite

Que escorra pelas nossas veias

frieza indiferença

Desintegrar teu rosto em minhas lembranças

Tirar teu gosto

Tua textura

Injeta a dor, me anestesia do

teu silêncio

me arranca o verbo esperar

eu quero injetar em mim

qualquer coisa sem você

me conte teus absurdos

quero ouvir teu não

injetar a casa vazia

desintegrar o teu corpo no meu

injetar em mim

teus novos amores

a falta de ar

injete teu sorriso

que não é pra mim

eu quero injetar em mim

qualquer coisa que me afasta de ti

arder muito

injetar mais uma dose de masoquismo

com pitadas de sadismo

tardes com sol

na varanda,

teu cabelo loiro

fumaça do cigarro pairando

teu beijo na minha boca

injetar descanso na cama

o café requentado

outra seringa, por favor

injete alegria

desmanchar na tua boca

eu quero injetar em mim

qualquer coisa que seja

você


Ana T.

domingo, 3 de abril de 2011

quase


Ler ao som de: Noite Severina

O corpo era esguio, as mãos fugitivas e os dedos finos seguravam o cigarro, um copo de vinho ao lado, talvez por isso fumasse, não era algo cotidiano, precisava estar ébrio para tal, os olhos tristes, um silêncio quase insustentável. Ana simplesmente estava lá, ele sabia que ela viria, ela se aproximou, mas sem se encostar, a fumaça pairava.
O jeito como ele segurava o cigarro, destilando certo desdém, atraia Ana, assim como os pulsos finos e a magreza escancarada, a fumaça a despertava, enevoando o ambiente e suas almas. Próximos, enquanto cegos pela ebriedade e atados pela fumaça que os cercavam, sentiam-se mesmo sem se tocarem.
- Ontem quando me deitei, não conseguia dormir, parecia que existia alguém ali, próximo, me olhando, não senti medo, foi sinestésico.
- Ontem quando me deitei, fiquei com uma sensação que estava te olhando Ana. Sentia-te tão próxima.
Os olhos dela ficaram maiores diante daquele comentário, se aproximou mais, talvez para escutar atenta o que os lábios dele diziam.
- Eu sei, foi estranho.
Ana olhou baixo, sempre desviava o olhar, uma timidez boba.
- Sentia você próximo, parecia que podia te tocar, mas sentia que se concluísse tal ação, teu corpo desintegraria diante dos meus olhos.
Ele quase sorriu, tentou acompanhar os olhos dela, e com uma voz baixa e calma falou:
- Eu sei Ana, é como quando tentamos beijar os lábios que não estão lá, pois tudo ia desvanecer, por isso só fiquei olhando, conferindo pra ver se você tava lá, mas sem fitar tempo o suficiente para eu notar que não.
Ela sorriu, fez alguma movimentação com as mãos, acendeu um cigarro, lábios finos, tragou.
- Sabe, estava tudo tão pesado, essa energia cósmica insustentável, e de repente essas nossas conversas me fizeram, fazem, tire o tempo dos verbos, vai além disso, muito bem, de verdade.
- As nossas conversas me parecem tão tão tão sólidas e atemporais, perenes demais para serem localizadas ou restringidas.
Ele sempre conseguiu expressar em palavras o que ela tentava descrever. Ana sentiu vontade de tocar a pele dele, estava tão próxima, o olhar resolveu parar de fugir, eles se olharam, se fitaram, a fumaça pairava, querência, desejo, pele e toque, quase.
Ela sorriu com a boca e com o corpo:
- Sempre fui viciada em escritos, vivo me confundindo entre o que escrevo e o que vivo, pairando entre as duas realidades, talvez perdida, viciada em tudo o que pode vir a ser um conto, nos toques, na respiração mudando de ritmo, mas ultimamente não conseguia sentir nada, era uma ausência insuportável de sensações, talvez com essas nossas conversas, eu tenha voltado a sentir cada palavra tua, cada palavra que sai da tua boca.
- Eu gosto de toques, não tanto como de sons, mas acho que por ter sentido você, não me dei por satisfeito somente com sons, e necessitei de toques.
- E eu fugi deles.
- Eu notei, Ana.
- Não entendo, eu gosto de tato, eu sou totalmente ligada nisso, pele, textura.
- Talvez eu tenha me enganado e Ana T. seja Ana Toque e não Ana Terna.
- Ou Textura, vai saber.
- Textura é inação. Algo que é. Sem vontade ou algo que o valha por trás. Toque não. Toque é atitude. É desejo, é Vontade.
- Mas textura, textura não se fala. A pele não gosta que saiam por ai falando assim, jogando ao ar a palavra: Textura. A boca tem que sentir, por mais clichê que seja. Lábio descobrindo a textura da pele.
- Toda descrição é vã. Acho que por isso não se deve falar de textura.
- Nem de toques, desejos, vontade
- É quase herege você excitar imagens e sons, atiçar-se olhos, ouvidos com textura, quando o único que realmente pode ser satisfeito por isso não está disponível: o toque.
- O toque como ação. Mas nós nos deliciamos com o quase, os poetas, escritores… que seja, qualquer que escreva, qualquer cena escrita é capaz de arrepiar.
- Todo escritor antes de mais nada é um sado masoquista. De se excitar e se martirizar pelo que cria e escreve. Principalmente quando não pode alcançar.
Ana se aproximou mais, o cigarro já havia acabado, ela sentiu vontade, desejo, ele sentiu o corpo estremecer, as pontas dos dedos pareciam se encostar, o arrepio emana da boca, mas percorre o corpo inteiro.
- Que metalinguagem absurda essa conversa.
- Ana.
- Que foi?
- Eu queria ter um toque seu pra lembrar.
- Não tem nenhum?
Dizia ela perdida entre suas memórias deturpadas.
- Tenho toques meus, vários até, quase toques também, mas não tenho um toque seu.
- Eu me lembro das tuas mãos em minhas pernas, e eu fingindo que não estava percebendo.
- E eu fingindo que você não estava percebendo. E eu sem saber o que havia em mim, o que me impedia de ser razoável e sair dali, ou ao menos tirar minha mão de sua coxa.
- Lembro-me vagamente da tua mão no meu pescoço, eu não sei se me fazia de tonta, ou realmente não estava entendendo nada, talvez um pouco dos dois.
- Eu me lembro da sua relutância, mas não soube interpretá-la.
- Nem eu explicá-la.
- Mas me pareceu justo fazer algo já que não me parecia possível ter seu toque, quis guardar tua textura.
- E guardou?
- Sim, resistiu inclusive a ebriedade, porem se desvanece.
- Eis a beleza do quase, do quase beijo, a perfeição pura. Perfeição insustentável.
A alça da blusa escorregou pelos ombros brancos, ela queria que ele descobrisse seu gosto, queria se arrepiar com a respiração dele, as palavras imploravam por descanso, a pele exigia o toque.
- Vontade de sentir teu cheiro. Bem ai, entre o seu pescoço e seu ombro esquerdo.
- Vontade de sentir você sentindo meu cheiro. Eu quase sinto teu toque, primeiro nas pontas dos dedos entrelaçando-se, teu cheiro, minha respiração em teu pescoço, tua mão em minha nuca.
- Mordisca a orelha, passa os lábios em direção aos teus, toque que escorrega e desce, orelhas, pescoço e ombros.
- Não beija.
- Provoca. Lábios descem até o ao pescoço, arranhar as costas, o corpo estremece.
Ana suspirava, acendeu outro cigarro, colocou a boina vermelha, tirou a boina, estava com a pele em chamas, o corpo quente, sinestesia escorria em suas veias. Sinestesia e vontade.
- Com boina ou sem boina? Escolhe.
Dizia ela tentando recuperar o ritmo da respiração.
- Com a boina, deixa eu me sentir o Bertolucci, te vendo francesa. Sim, eu sei que ele é italiano.
Quanto desdém, ele também havia acendido outro cigarro, o corpo dele também queimava aos poucos, queria sentir arder suas costas com os arranhões dela.
- Sinto sono.
- Deita comigo.
- Deito. Qual será meu gosto na tua boca?
- Algodão doce. Acho que imagino teu gosto em mim como algodão doce, sabor e textura.
- Teus lábios beijando meus ombros.
- Ana, quero tanto te abraçar.
Ele se aproximou, quase sentiam a respiração um do outro.
- Teu abraço me faz bem.
Ele sorriu, não era muito de sorrir, um sorriso doce, talvez um leve desespero no olhar.
- Parece que estamos presos ao segundo que antecede a língua descobrindo o gosto da pele.
- É. Quero o erro, respiro teu desejo.
Os lábios se convocam, estremecendo esquentando arrepiando, os dedos quase escorrem pelo corpo outro.
- Ana, e se eu tocar você agora?
- Eu desintegro.
- Melhor não descobrirmos as ausências, não ainda.


PS: Esse conto não é de autoria apenas minha, foi escrito em conjunto.
a foto é minha e deu trabalho.

câmbio/desligo.
beijos da Ana T.
quase beijos.

sábado, 2 de abril de 2011

leveza


Para Ana e André:

Ana, Ana, Ana
Ana do Caio
Não perca sua textura
Nem tua ternura
Não perca a utopia
Ana sem rima, Ana sem rumo
Nem prosa, nem poesia
Não suma entre as paginas
Não chore tanto
Ana, Ana, pare de fumar
Quebre o cotidiano, fuja das reticências
Paire Ana, voe
Sai dos nós, viva Ana
Não se perca em seus contos, nem nas frustrações de seus personagens
Serão personagens?
Ana, quero tua leveza
Teu sorriso de menina.

Eu quero ir pra praia.
Eu quero beijar tua boca devagar.
Eu quero comer frutas.
Eu quero pairar.
Alguém me leva pra comer algodão-doce?
Quero um parque bem bonito.
Eu quero um árvore de amoras, isso meu amor, amoras.
Amoras, amar o mar e delírio, flor de lírio, flores e amoras.
Clichê e piegas, me leva ao cinema, sábado e pipoca.
Beijos estalados, gargalhadas e olhares de amêndoa.
Um bilhete entre as paginas do teu livro, ternura no espelho embaçado.
Paire.


câmbio e desligo.
Raquel, Raquel e Raquel.

ah, agora eu tenho um flickr: http://www.flickr.com/photos/livredosconceitos
essa foto é de lá.
besos.
Raquel.

era pra eu ter postado isso no dia 28 março, mas o blogspot não me permitiu.


terça-feira, 22 de março de 2011

"São Paulo é um cinzeiro."

Eu não tinha mais unhas pra roer, as cutículas sangravam, ardiam, chorava por tudo e ao mesmo tempo pela ausência de motivos plausíveis, chorava até soluçar, todos me encaravam, alguns arregalavam os olhos assustados, destilavam um carinho estranho por desconhecidos perdidos, outros expressavam um desdém, - talvez esteja drogada, com esses olhos, essas tatuagens, certamente está drogada, sentada no meio da calçada, acuada, aposto que andou cheirando por ai.
Não, eu não estava drogada, não andei injetando, faz tempo que estou limpa, estava anestesiada, não sentia mais nada, eu não senti nada, eu não senti nada, eu não senti nada, eu não sinto nada, eu não senti nada, bocas, lábios, a língua procurando a outra, toques, textura, eu não sentia nada, tesão enlatado, anestesia sinestésica.
Eu chorava tanto, com os braços abraçava minhas próprias pernas, eram sete da tarde na Avenida Paulista, não escutava nada além das buzinas-buzinando-gritando-pessoas-andando-sem-rumo-perdidas-multidões-indigestas-medos-ambulantes-fantasamas-sussurros-gritos-reticências- eu não queria mais reparar em nada disso.
Teu abraço apertado no meio da rua, o cheiro da tua camisa branca limpa, o teu cheiro limpo, teus olhos vermelhos de tanto chorar, cabelos loiros-e-tão-desarrumados, as buzinas buzinando nos meus ouvidos e eu não conseguia escutar o que tua boca falava, talvez não falasse nada além de silêncio, teus braços abraçavam meus ombros, me protegiam, e era quase seis da tarde, estávamos ilhados, o metrô estava lotado, os carros parados, eu chorava me escondendo em teu peito, as ambulâncias insistiam em fazer da minha dor banal, diante de tanta desgraça-e-miséria, você perguntava o que estava havendo, você estava desesperado, você sabia o que estava havendo, você sabia que não sabíamos o que estava havendo, ausência de sentidos, confusão, medo, choro entalado na garganta, ciúme, hipocrisia, hipocrisia, tanta hipocrisia, não era tua nem minha, não era nossa, a gente só queria a tua cama pequena, os passarinhos lá fora, um fumo e o Cartola cantando, a gente só queria qualquer coisa que não fosse essa angustia, essa cidade doida cheia de pessoas doentes-loucas-apressadas-sórdidas morrendo por ai, mas querendo acreditar que ainda tem muito pra viver.
E atravessamos a rua, e eu ainda tentava gritar mais alto que todas as ambulâncias juntas, eu gritava que estava cansada, cansada, que não queria mais ser assim, que não queria mais sentir isso, que não queria mais escrever, eu estava cansada de mim, de todas as manias, as pseudo-loucuras-criadas-para-suportar-uma-normalidade-medíocre-e-que-destilava-monotonia, eu estava cansada de todos os meus contos cheios de pessoas frustradas, desencantadas, presas e apaixonadas por qualquer coisa, você apertava meu rosto contra seu peito, segurava a minha mão com medo que eu me soltasse e ficasse ali parada, no meio da rua, esperando um carro me quebrar inteira, mas você sabe que eu não tenho coragem pra isso.
Nos despedimos, eu chorava, você chorava, - você me faz sentir alguma coisa ainda.você não me anestesia. você me aproxima da lucidez e da loucura. – eu sinto com você, eu sinto por você, eu sinto tesão e dor, sinto minha pele arrepiando com a tua língua, eu sinto, eu não quero parar de sentir. Eu fugi do teu abraço, e você perdeu o ônibus, e você me beijou, e eu te beijei, e você foi embora, eu fui embora, eu fui andando, e eu parei, e fiquei olhando pra trás, vendo a tua ausência, eu fiquei parada tanto tempo, tanto tempo, tanto tempo, procurando fios loiros de cabelos desarrumados, procurando olhos vermelhos de tanto chorar, e se você aparecesse?
Andei tonta, você rodopiando no meu corpo, na minha mente, dei a volta no quarteirão, racionalidade besta, tive vontade de me picar, segurei as pontas, senti tudo vago, uma zonzeira, eram quase sete da noite na Avenida Paulista, a cidade está louca, o Caio já dizia, e eu sei, e você sabe, e aquele maldito conto ecoando na minha cabeça “Não temos culpa, tentei. Tentamos.”, o nome era Anotações de um Amor Urbano, ótimo nome, ótimo nome, chorar, chorar, às cinco da tarde estávamos sentados no vão do MASP, eu lia o conto pra você, pros teus olhos, anotações de um amor urbano, era um amor urbano, somos um amor urbano, um cara parou ali na nossa frente. – oi casal, gostam de humor inteligen.... eu nem deixei o cara terminar. – seguinte cara, não tenho nada aqui. – porra, vocês são tão paulistanos. Porra, o cara me quebrou, eu não era paulistana, mas estava agindo exatamente como aquela multidão atravessando a rua em um dos sinais da Consolação, - porra cara, é só um dia difícil, uma energia pesada no ar, entende? – Entendo, entendo. Saiu andando, entende porra nenhuma, entende mais do que, mais do que você.
Eram sete e trinta e dois na Avenida Paulista, noite, vento, eu sentada chorando, o metrô ainda estava lotado, a cidade está louca, eu não agüentava mais chorar, achei que fosse vomitar, tentei levantar, cai, levantei, fui andando, desci a Augusta, três doses de pinga, qualquer pinga, a mais barata, ventava, eu não queria me picar, preferi o álcool, menos prejudicial, prezando por uma vida saudável-medíocre-sem-sentir-sem-tesão, mais uma dose, bêbada, lendo Caio, sem nada no estômago, sem tua camiseta branca e limpa, sem teu cheiro de camiseta branca e limpa, o metrô já estava menos lotado, o digital marcava oito e trinta e três, andando caindo, pessoas me olhavam tão feio, foda-se, entrei na estação, não tinha grana no bilhete único, juntei as moedas, comprei um bilhete, entra no metrô, cheiro de álcool em mim, desce no Paraíso, pega sentido Jabaquara e desce na Santa Cruz, pega ônibus, lotado, lotado, eu bêbada, cheirando a pinga barata, chorando, rindo, lendo em voz alta o conto que eu fui personagem, anotações de um amor urbano, pior de tudo é que não é conto, por um segundo até pensei que fosse, bêbada.
Agora são onze e cinqüenta e três, tomei um banho quente quando cheguei, vomitei, não vou comer, não tem nada pra comer, não me piquei e nem cheirei, dormir sem você, acordar sem você, bem brega e bem babaca, lembrar que tem que encher o bilhete único amanhã, não esquecer, deitar, virar de um lado pro outro e não dormir, sonhos perturbados, que sonhos? Pesadelos, falar teu nome durante a noite, está tudo bem, não tem motivos para o desespero, apesar que o riso excessivo demonstra algo estranho, quero tua camisa branca e limpa, agora, agora não dá, já passou da meia noite, não tem mais metrô. Eu falo em voz alta - “Não temos culpa, tentei. Tentamos.” Agora eu vou dormir sem sonhar sem sentir.


Ana T.


[foto: http://www.flickr.com/photos/rafael_paixao/5239722243]

sem mais.

quarta-feira, 16 de março de 2011

ternura e remédio.

Metrô lotado, a cidade está cinza (pra variar), minha tosse está pior, as pessoas gritam, às vezes paira um silêncio amedrontador, acho que estou com febre, alguém lê qualquer coisa sobre auto-ajuda, me vem um desânimo acompanhado pelo gosto de remédio. Percebo que o ar condicionado está desligado, “É tudo tão vago como se fosse nada”. Acho que é isso, Caio Fernando Abreu, gosto muito dele. Dormi na tua casa ontem, foi tão conturbado, tudo, não sabia se queria ir, fiquei parada te olhando, senti vontade de chorar, entrei no ônibus bem no último instante, você me olhou sem surpresa, o caminho eu não me lembro, mas foi muito rápido. A conversa ecoa na minha mente agora, gosto de pensar em como suas falas interferem no meu cotidiano, meu cotidiano, meu universo, meu mundo, meu. E como o tempo transforma a importância que dou para as palavras que saem da tua boca.
Não é bem o tempo, minhas, digo, nossas transformações que são acompanhadas pelo tempo. Enfim, tuas frases interferem diretamente na minha vida, hoje de uma maneira mais contundente do que há tempo, tuas palavras rasgam alma. Apesar de brega, é exatamente isso.
Tua casa, me senti bem, teus olhos destilavam monotonia, eu não comentei, senti fome e frio e calor. Senti vontade do teu sexo, da tua boca. Estava com febre, havia perdido a fome, deitou na cama comigo, senti tua saliva, tua pele quente, tua língua quente, eu não tinha muitas forças. Tomei um chá, um vento gelado me fez tossir, você queria destilar uma indiferença, mas tuas mãos sobre o meu rosto negavam qualquer vontade racional. – Vamos dormir? Você disse.
Tomei meus remédios ouvindo tua crítica sobre minha essência hipocondríaca, deitei na sua/nossa/tua cama pequena, e como esperado, a noite foi conturbada, não achava maneira de dormir, quando dormia, acordava, atrapalhei teu sono, teus sonhos, me sentia quente, não tinha ar, abri os olhos sem vontade, tuas mãos sobre meu rosto, tuas mãos sobre minha testa, teus olhos estava fechados, tuas mãos me apertavam contra seu peito, tive vontade de gritar as mais tolas declarações, mas não tinha fôlego.
Você...dormindo...cuidou do meu sono, da minha febre, do meu corpo, da minha alma. Enfim dormi algumas horas, acordei com o cheiro típico do teu café.
Fui embora com resquícios da tua frieza, mas com doses exageradas de sua ternura insana e lúcida.

Ana T.

terça-feira, 1 de março de 2011

Quinta-feira

- Oi.

- Oi.

- Mudei meu nome.

- Legal.

- Agora é Brisa.

- Leve.

- Mudei meu rosto.

- Que brisa.

- Agora é Leve.

- Mudei minha alma.

- É bom?

- Sinestésico.

- Mudei meu beijo.

- Eu percebi.

- Você.

- Sim.

- Eu.

- Gosto tanto.

- Mudei minha pele.

- Textura.

- Mudei de espaço.

- Pra onde?

- Rua de cima, Rua da Saudade, 175.

- Te visito lá.

- Acabou a luz, mas tem muitos espelhos.

- Que bom.

- As paredes são em prosa, a porta em poesia.

- E teus cachos?

- De amora.

- Acho que vou embora.

- Pra lá.

- Mistura, desmancha no ar.

- Marx.

- Foucault.

- Me perdi.

- Em mim.

- É sempre assim.

- Que boba.

- Quem é você?

- Sou eu.

- Clichê.

- Medrosa.

- Ai, que audácia.

- Ironia sem obter sucesso.

- Sucesso.

- Palavrinha corporativa.

- Empresa, executivo.

- Ah..equipe...normas.

- Entrevista.

- Você se considera ativo?

- Babaca.

- Hipócrita.

- É isso!

- O que?

- Eu tenho que ir pra uma entrevista.

- Vai lá!

- Eu vou pular em uma piscina de hipocrisia.

- Oh drama, vida cruel.

- Brisa.

- Leve.

- Beijo.

- Boa entrevista.

- Até.

- Te vejo no espelho.

Ana T